Diálogo inter-religioso

 Numa época que apela à espiritualidade e ao cumprimento de uma tradição católica, a Nós lançou um desafio a três representantes de religiões não cristãs. Numa entrevista multicultural, debatemos os seus ideais e a forma como encaram a quadra natalícia. As questões foram muitas: Porque existem tantas religiões no mundo? Quais as principais diferenças e o que as une entre si? O que significa ter fé em tempos de crise económica e de valores? As respostas chegaram sob a forma de um verdadeiro presente, apontando algumas saídas possíveis.

 O sheikh David Munir é Imam na Mesquita Central de Lisboa e representante da Comunidade Islâmica da capital. Tem 46 anos, é pai de três filhos, nasceu em Moçambique e vive em Portugal há 23 anos. Etimologicamente, explica-nos que a palavra Islão deriva do árabe “Saláma”, que significa paz, pureza e obediência. No sentido religioso, remete para uma submissão voluntária à vontade de Deus. A Sua mensagem foi transmitida aos homens pelo profeta Muhammad (570 d.C.), através do livro sagrado dos muçulmanos, o Alcorão.

 Presente neste debate esteve também Marco Oliveira. Aos 46 anos, é responsável do gabinete de relações públicas da Fé Bahá’í e membro da Assembleia Nacional da mais jovem religião do mundo. É engenheiro informático e pai de dois filhos. Tendo iniciado o seu processo de conversão aos 20 anos (Marco Oliveira era um católico pouco praticante), é simultaneamente casado pela sua fé e pela igreja católica, que a mulher professa. O fundador da fé Bahá’í, Bahá’u’lláh (1817-1892), é considerado como o mais recente mensageiro de Deus, depois de Abraão, Moisés, Buda, Zoroastro, Cristo e Maomé.  Defendendo um princípio de igualdade entre homens e mulheres, os bahá’ís promovem o abandono de todas as formas de preconceito, a união entre as religiões e a eliminação dos extremos de pobreza e riqueza.

Por sua vez, também Paulo Borges foi baptizado pela igreja católica, convertendo-se a uma religião diferente aos 20 anos. Em 1981, terminava a sua licenciatura em Filosofia quando iniciou um contacto mais profundo com uma nova forma de vida. Começou por praticar yoga e meditação, passando posteriormente a ter Buda como referência no seu dia-a-dia. Trinta anos depois, é professor na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, especialista em Filosofia da Religião e presidente da União Budista Portuguesa. Vive em união de facto e é pai de dois filhos. Desconfortável com a situação de contínuo stress e com a falta de valores que caracteriza a sociedade contemporânea, afirma que o ser humano terá de procurar dentro de si próprio um caminho de mudança e iluminação.

O nascimento de Jesus Cristo

 As luzes nas ruas, as decorações nos locais de trabalho, lojas e centros comerciais, os cânticos e a própria programação televisiva são sinais evidentes de que esta é uma data importante no calendário cristão. Dando início ao debate, começamos por falar do espírito natalício a que nenhum dos três líderes permanece indiferente. Inseridos numa sociedade que cumpre a tradição católica, acabam por celebrar a data em família, não no seu sentido religioso, mas essencialmente cultural. No entanto, David Munir confessa-se desconfortável relativamente ao actual significado da quadra: “Não se deveria misturar a parte espiritual com a material. No Islão não temos o hábito de oferecer prendas durante as festas, que são o fim do Ramadão e o fim da peregrinação a Meca. As prendas deveriam oferecer-se nos aniversários, mas não nestas épocas.”

 Para Paulo Borges, o Natal simboliza o nascimento de um bodhisattva - um ser proveniente de uma dimensão luminosa e espiritual, que vem à Terra para ajudar os outros a evoluir. Segundo defende, não existem bodhisattvas apenas dentro do Budismo, podendo estes ser encontrados em todas as religiões: “Aquilo que nós consideramos a natureza de Buda (que não é um indivíduo, mas um estado espiritual de plenitude), manifesta-se de muitos modos. Todos os sábios e fundadores de religiões podem ser considerados manifestações da natureza de Buda.”

 Também para bahá’ís e muçulmanos, Jesus Cristo foi um profeta que transmitiu uma mensagem social importante, de união entre os povos e de aproximação ao Criador. No entanto, ao contrário do que o cristianismo defende, nenhum dos três representantes acredita tratar-se do filho de Deus feito homem.  O budismo, por sua vez, não partilha desta linguagem teísta: não fala de Deus enquanto ser transcendente e exterior ao Homem e defende que a natureza de Buda é uma luz que se encontra dentro de todos os seres.

Torre de Babel

 No debate que prossegue, vamos falando de valores universais, comuns aos três representantes. “Ama o teu próximo como a ti mesmo” parece ser um princípio fundamental para cada uma deles, o que nos leva a questionar a razão pela qual existem tantas religiões. David Munir avança uma resposta: “A religião é ‘re-ligar’ com o Criador. Existem vários caminhos, mas todos eles levam a um só Criador. Se eu sigo um caminho, para mim, aquele caminho é a verdade. Se um budista segue outro caminho, para ele, esse caminho também é a verdade.” Defendendo uma ética universal, o sheikh sublinha que: “Independentemente de ser ou não religioso, o importante é que o ser humano tenha a noção de que a sua liberdade termina onde começa a do outro. Isto significa que, para ser respeitado, eu tenho que respeitar. Se Deus não quis que todos nós tivéssemos uma só religião, se Ele próprio preferiu que existissem vários caminhos para chegar até Ele, quem sou eu para o desejar?” Para o sheikh, aceitar esta certeza constituiria um passo importante no estabelecimento da paz entre os povos: “Se nós deixarmos cada pessoa no seu caminho, sem invadir o do outro, então temos uma sociedade sã, sem guerras em nome das religiões.”

Partilhando deste ponto de vista, Marco Oliveira defende que o sentido da espiritualidade existe independentemente da sua beleza e forma exterior. Citando Gandhi, relembra que “As flores no altar podem ser diferentes, mas a adoração é sempre a mesma.” Na sua opinião, as religiões surgem de acordo com etapas do desenvolvimento da humanidade, com ensinamentos adequados à maturidade e necessidades de cada povo. O presidente da União Budista Portuguesa contesta, afirmando não acreditar numa evolução histórica em termos espirituais: “Nós não consideramos que, nos tempos mais remotos, a humanidade estivesse numa fase de menoridade espiritual e que, à medida que o tempo avança, se torna cada vez mais perfeita e susceptível de revelações superiores.” Ao invés, defendem que as religiões nascem da diversidade dos homens e dos contextos histórico-culturais: “Para nós, budistas, há uma mesma sabedoria e luz presentes em todos os homens. Mas esta luz tem que se manifestar de formas diversas em função dos seus destinatários, para que todos a possam compreender.”

 Socorrendo-se de uma metáfora utilizada pelo XIV Dalai Lama, Paulo Borges afirma que as religiões podem ser vistas como diferentes medicamentos, utilizados para sarar doenças distintas: “Todos os homens, de algum modo, enquanto não chegam à perfeição, estão doentes. Uns têm a doença da ignorância (não sabem quem são, nem de onde vêem) e outros têm a doença das emoções negativas (da inveja, do ciúme e do orgulho). As religiões podem ser entendidas como medicamentos, porque todas elas visam igualmente a saúde espiritual.” Mantendo a linguagem metafórica, o representante budista afirma ainda que as religiões são caminhos escolhidos por diversos homens que se encontram na base de uma montanha. Com um objectivo comum (atingir o topo), partem de pontos distantes uns dos outros, podendo nem se avistar entre si. No entanto, à medida que vão subindo, a distância é encurtada e, ao atingirem o topo – que corresponde à perfeição absoluta - verificam que a perfeição é a mesma para todos. Para Paulo Borges, as religiões são o meio ou a fórmula certa para se atingir a Iluminação: “Do ponto de vista budista, quando os homens se tornarem sãos, poderão dispensar as religiões. Buda disse que o budismo é apenas uma jangada que nós podemos usar para ir para a outra margem.”

 

 

Crise económica e de valores

 Tendo 2009 sido um ano particularmente difícil em termos económicos, o tema não poderia deixar de ser debatido. Marco Oliveira afirma que a tão falada crise teve dois efeitos visíveis (e opostos) na generalidade dos portugueses: uns recorreram à fé, na tentativa de superar dificuldades e encontrar respostas, enquanto outros preferiram apegar-se a recursos mais mundanos e superficiais. “Nós sentimos os efeitos materiais da crise. Nesses casos tentamos sempre ajudar as pessoas da nossa comunidade, e as de fora, que estejam a passar mal”, sublinha o representante Bahá’í. Também para David Munir, a questão é particularmente difícil, já que existem cada vez mais pessoas que o procuram por razões não-espirituais. De ano para ano, o sheikh vê aumentar o número de sem-abrigo que lhe pedem uma refeição quente, sobretudo durante o mês do Ramadão, em que a mesquita serve jantar aos muçulmanos após o período de oração.

 Paralelamente, os três líderes consideram que a sociedade contemporânea atravessa uma não menos grave crise de valores. Tomando a iniciativa, Marco Oliveira afirma que a religião será o remédio adequado para esta última e, em tom poético, formula uma analogia: “A religião não é um porto de abrigo onde os barcos se refugiam quando há uma tempestade no mar. A religião é um estaleiro naval que fortalece e repara os barcos, preparando-os para se lançarem ao mar e enfrentarem as tempestades. É isso que a religião pode fazer por nós: fortalecer-nos em termos de carácter, virtudes e consciência.” Sobre este aspecto, David Munir acrescenta que um dos grandes problemas da sociedade é precisamente o seu egoísmo, concretizado em exemplos práticos como o simples facto de as pessoas terem deixado de cumprimentar (e conhecer) os seus vizinhos ou aqueles que lhe são próximos.

 Já na opinião de Paulo Borges, o aumento da procura da espiritualidade e das religiões deve-se a uma enorme desilusão com o suposto desenvolvimento económico e tecnológico iniciado nos finais do século XIX: “As pessoas já perceberam que é difícil sobreviverem desta forma, continuando um processo de exploração desenfreada dos recursos naturais.” O presidente da União Budista sublinha que esta procura de um sentido para a vida é ironicamente gerada pela sociedade ocidental, laicizada, profana e agnóstica. Em simultâneo, formula um desejo para 2010, partilhado pelos três entrevistados: independentemente da fé praticada, ou do próprio ateísmo de cada um, gostariam que se voltasse a valorizar a sabedoria, o amor, a amizade e a compaixão. Esta mudança, como defendem, deverá ser iniciada dentro dos próprios organismos de poder. De acordo com Paulo Borges, “as religiões convidam a uma mudança profunda da mente, e só esta mudança pode conduzir a alterações sociais, políticas e económicas. Não sei bem como, mas nós precisávamos de ter sábios no poder, que pensassem no bem comum.” Um desejo de Ano Novo e um princípio ético que une três religiões distintas.

Ana Catarina Pereira

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