A religião no feminino

 Pensar em fé e em práticas religiosas é geralmente pensar nas avós e mães que ensinam a rezar, que conduzem filhos e netos a um templo sagrado a um determinado dia da semana, ou que vão ditando regras e mandamentos que procuram cumprir escrupulosamente. Em casa e no seio das famílias são geralmente as mulheres que se empenham na preservação das tradições, enquanto aos homens cabe antes um papel de assentimento contínuo. No entanto, na passagem da esfera privada para a pública os papéis invertem-se e são eles que assumem os lugares de destaque. Padres, pastores, rabinos, monges ou sheiks são maioritária (quando não exclusivamente) do sexo masculino. No final da primeira década do século XXI, quando se comemora o primeiro centenário do Dia Internacional da Mulher, a Notícias Sábado foi falar com representantes de cinco religiões diferentes.

 

Ana Vicente - O Cristianismo na vertente Católica

 “A Igreja Católica é uma igreja de amor. É isso que ela deve professar.” As palavras são de Ana Vicente, crente em Deus e católica apostólica romana desde os primeiros anos de vida. Os princípios em que acredita parecem, no entanto, não condizer com o actual estado da Igreja, o que a torna uma das vozes mais críticas da religião que pratica.

 No início da sua carreira profissional, começou por ser professora e tradutora. Mais tarde, presidiu à Comissão para a Igualdade e para os Direitos das Mulheres – CIDM, foi Secretária Executiva do Programa Nacional de Combate à Droga e consultora do Fundo das Nações Unidas para a População. Juntamente com Maria João Sande Lemos, foi uma das responsáveis pela chegada do movimento Nós Somos Igreja a Portugal, dois anos depois de ter sido fundado em Roma, em 1996. Tem 67 anos e é casada há 40.

 Para Ana Vicente, a Igreja Católica deveria ter uma estrutura menos hierarquizada, que permitisse um maior envolvimento de todo “o povo de Deus” nas questões essenciais. Na sua opinião, o imenso fosso que separa clero e leigos é totalmente despropositado. Relembrando alguns casos de pedofilia dentro da estrutura eclesiástica, sublinha que o sacerdócio não deveria ser exclusivamente masculino: “Esta ideia de que os padres têm que ser homens, celibatários e uma espécie de seres fora deste mundo tem dado tristes resultados. Excluir as mulheres da Igreja é tão obviamente contra a mensagem de Jesus!”  Para o provar, cita a Carta de São Paulo aos Gálatas, que considera um importante passo na universalização dos direitos humanos: “Não há judeu nem grego, não há servo nem livre, não há homem nem mulher, pois todos vós sois um em Cristo.” Ficava assim provado, sublinha, que todos os seres humanos detinham o mesmo valor, independentemente da sua condição social, género, idade ou orientação sexual.

 Sendo esta última uma questão polémica, a representante católica discorda totalmente da posição da Igreja relativamente ao casamento entre homossexuais: “Algumas pessoas têm uma orientação homossexual que não escolheram. São uma minoria, mas essas pessoas existem, e certamente que Deus as ama da mesma forma que aos heterossexuais. Como cristã, acho que não faz sentido discriminar uma pessoa por ela ser homossexual.” Mas as incongruências da Igreja Católica não se ficam, no entender de Ana Vicente, por aqui. Na sua opinião, a postura irredutível face à interrupção voluntária da gravidez e ao uso de métodos anti-concepcionais está totalmente ultrapassada: “Como é que se pode condenar uma mulher por ter praticado um aborto e, ao mesmo tempo, dizer que o preservativo é pecado? Isto não faz sentido! É evidente que todos somos contra o aborto, que é a interrupção de uma vida, mas eu não me sinto com capacidade, nem ninguém deveria sentir, para julgar uma mulher que faz um aborto, muito menos de dizer que ela tem que ir para a prisão.” 

 Num futuro próximo, Ana Vicente gostaria ainda que a Igreja abandonasse a sua fixação negativa sobre a sexualidade: “É uma coisa boa, criada por Deus, e que faz parte intrínseca do ser humano!” Sublinhando que estes são desejos partilhados por inúmeros católicos, considera que a falta de novos padres não está relacionada com uma crise de vocações, mas antes com uma vontade de mudança: “Há ordens religiosas, tanto de homens como de mulheres, que estão a desaparecer porque, efectivamente, não se souberam adaptar. A ideia de que ‘sempre fomos assim e sempre assim seremos’ é um erro.”

 Ao eterno argumento de que as mulheres não podem abraçar o sacerdócio porque os apóstolos eram homens, Ana Vicente responde com pragmatismo. Tratando-se a Última Ceia de uma festa judaica, considera estranho que não se encontrem presentes mulheres e crianças: “Ainda assim, se aceitarmos que Jesus escolheu doze homens, também podemos deduzir que todos os padres deveriam ser judeus. Para levar as coisas ao extremo, se Jesus, de facto, só queria homens, as mulheres não podem sequer ser baptizadas. Sejamos coerentes! Não existem dez mandamentos para os homens e dez mandamentos para as mulheres. Jesus pede às mulheres a mesma santidade que pede aos homens.”

 Apesar de lutar activamente pela ordenação das mulheres, Ana Vicente não deseja esta possibilidade para si própria. Por outro lado, também não pondera a hipótese de abandonar o catolicismo: “Muita gente diz que, se não concordamos com os princípios, devíamos ir para outra religião. Mas nós somos um movimento reformador dentro da igreja, que quer continuar a ser católico. Eu gostava que a igreja a que pertenço, e na qual fui baptizada, fosse mais perfeita.”

 

Míriam Lopes - Outras visões cristãs

 Num país onde a maioria da população é baptizada pela Igreja Católica, qualquer outra vertente do Cristianismo é praticamente desconhecida da população em geral. No entanto, se o movimento Nós Somos Igreja luta activamente pela ordenação das mulheres dentro da Igreja Católica, há muito que as igrejas protestantes a aceitaram como uma realidade. Míriam Lopes, 51 anos, foi a primeira mulher pastora em Portugal, pela Igreja Protestante Metodista. Residente em Moura, no Alentejo, colabora também com a Igreja Evangélica Presbiteriana de Portugal.

 Num tom introspectivo, Míriam Lopes revela uma certa mágoa pela discriminação de que por vezes é vítima: “Não sou muito patriota, porque penso que a minha Igreja é muito mal tratada em Portugal. Somos olhados como seres estranhos... As pessoas têm receio de entrar nas nossas igrejas porque pensam que vão para o Inferno.” Ser praticante de uma religião minoritária em Portugal é, na sua opinião, como ser cidadã de segunda classe: “Continuamos a ser misturados ‘no mesmo saco’ com práticas de outras supostas ‘igrejas’.” 

 Questionada sobre as diferenças entre protestantismo e catolicismo, Míriam Lopes afirma que o primeiro centra a sua mensagem no testemunho bíblico de Jesus Cristo, filho de Deus: “Essa mensagem é actualizada ‘aqui e agora’ pelo Espírito de Deus, que nos comunica a Sua vontade no contexto social e pessoal de cada um. O Espírito é livre e sopra onde quer, inspirando seguidores de Cristo, novos discípulos, proclamadores da sua salvação. Logo, todos os fiéis nas nossas igrejas, chamados a uma nova vida em Cristo, participam do ‘sacerdócio universal de todos os crentes’, todos são leigos e todos são sacerdotes.” A hierarquia da Igreja Católica, criticada por Ana Vicente, parece ser aqui substituída por uma relação menos formal e mais envolvente. Segundo Míriam Lopes, os pastores protestantes não constituem um clero, sendo antes “os escolhidos de entre o povo de Deus”. Ao contrário do exigido pela vertente católica, estes podem ser elementos de ambos os sexos e de qualquer estado civil. Para os metodistas, em particular, Cristo é o caminho e o único mediador entre Deus e os homens; os santos são vistos como exemplos de fé, mas não como intercessores.

 Relativamente ao papel da mulher na religião cristã, Míriam Lopes considera que este foi muito evidenciado por Jesus: “Podemos ver isso nos evangelhos. As mulheres, sobretudo as viúvas ou rejeitadas pelos maridos, eram (e ainda são), como os pobres, os doentes e os párias, destituídas de dignidade social e religiosa. Elas reconheceram-no como o Messias e foram suas fiéis seguidoras. Ele falava com elas na rua, e até comia com algumas de má fama, o que era inaceitável para um Mestre do seu tempo.” Lembrando também que, para Cristo, não existe judeu ou grego, servo ou livre, homem ou mulher, considera que a realidade dos tempos modernos ainda não corresponde ao ensinamento proferido há dois mil anos: “Existem igrejas que negam às mulheres o direito a participar na orgânica eclesial, como presbíteras com capacidade para celebrar sacramentos. As igrejas protestantes, como a Metodista, a Presbiteriana, a Luterana, e outras baseadas na atitude evangélica da Boa Nova de Jesus, reconheceram desde sempre a participação plena das mulheres na Igreja. As ordenações de mulheres como pastoras, ou a eleição como moderadoras ou bispas, é algo normal desde há muitas décadas.”

 Quanto às questões habitualmente polémicas em matéria de religião, Míriam Lopes sublinha que, para os protestantes metodistas, a reprodução não é o único fim do casamento: “Há muitos casais que não têm filhos e que não deixam, por isso, de poder viver felizes e de ser uma inspiração mútua para os que os rodeiam.” Assim, qualquer membro desta comunidade pode optar por utilizar (ou não) métodos anti-concepcionais: “Afirmamos o respeito pela consciência de cada um, e de cada uma, incluindo na sua relação com Deus, consigo própria(o), e com os outros.” Sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo, Míriam Lopes afirma não existir ainda um pronunciamento oficial das igrejas protestantes em Portugal.  No entanto, considera que a evolução da lei, e da consciência social e pública, em todas estas questões se encontra próxima da atitude manifesta por Jesus, de apelo à essência do coração de cada um, em respeito por si e pelos outros.

 

Esther Mucznick - O Judaísmo no feminino

 Esther Mucznick é a vice-presidente e o rosto mais mediático da Comunidade Israelita de Lisboa (CIL). Filha de pais polacos (que vieram para Portugal para evitar o anti-semitismo do seu país), nasceu em Lisboa, onde viveu até aos 16 anos. Nessa altura, emigrou com a família para Israel, de onde partiria, mais tarde, para Paris. Na capital francesa, licenciou-se em Sociologia pela Universidade de Sorbonne, antes do regresso a Portugal. Ao longo da vida profissional, trabalhou na Embaixada de França e foi coordenadora do Centro de Documentação do Instituto Franco-Português. Actualmente, coordena os programas da CIL na RTP, é colunista do jornal Público e membro da Comissão de Liberdade Religiosa do Ministério da Justiça.

 Quando lhe perguntamos como é ser judia num país onde o cristianismo é religião maioritária, Esther Mucznick relembra os seus primeiros anos de vida: “A minha sociabilização era feita essencialmente dentro da comunidade. A própria sociedade e o regime impunham isso. Não quer dizer que não existisse liberdade religiosa - ela existiu durante toda a ditadura salazarista. Nós vínhamos à sinagoga livremente mas, de certa maneira, éramos sempre considerados estrangeiros.”

 No regresso a Portugal, já depois do 25 de Abril, afirma ter sentido uma nova atitude face às minorias não-católicas. As principais razões que aponta para esta mudança prendem-se sobretudo com a chegada de muçulmanos e hindus provenientes das ex-colónias: “É evidente que a cultura religiosa dominante continua a ser a católica, mas começa a existir a percepção de que se pode ser português sem ser católico; pode ser-se português judeu, português hindu, português muçulmano… Depois, é claro que a democratização é um elemento fundamental, porque as pessoas podem exprimir-se e dizer abertamente aquilo que são. Não é que, no tempo da ditadura, não o pudessem fazer mas, por uma questão de precaução, mantinha-se um perfil muito discreto.” Por outro lado, a lei religiosa de 2001 viria reconhecer a existência de uma grande diversidade de confissões religiosas.

 Para Esther Mucznick ser judeu representa todo um mundo, uma fé, uma memória e uma História muito carregada, que se vai transmitindo de geração em geração: “Segundo a lei religiosa judaica, é judeu todo o filho de mãe judia. Existem judeus ateus, que já não sentem fé em Deus, mas que querem continuar a praticar e a transmitir a tradição aos seus filhos. Ser judeu é uma consciência de identidade e uma responsabilidade de manter a corrente. E, como para mim não é só uma questão de fé, eu nunca mudaria de religião. É um todo que tem a ver com a minha própria identidade.”

 Quando lhe perguntam como se define essencialmente (judia ou portuguesa), Esther Mucznick responde que se identifica sobretudo como mulher e mãe, sendo também estes os papéis que transporta para a direcção da comunidade israelita - maioritariamente constituída por mulheres, mas liderada por um homem. Na sua opinião, ser mulher na religião judaica é ser transmissora da tradição, memória e valores comuns. Dentro da religião, existem algumas funções tradicionais atribuídas às mulheres, como o acender das velas à sexta-feira à noite ou o preparar de uma refeição festiva para acolhimento do Sabat (sábado, o dia santo da religião judaica). Actualmente, sublinha, estas tarefas são já partilhadas por ambos os membros do casal, o que considera ser um reflexo da evolução da própria sociedade. No entanto, reconhece, no rito ortodoxo, praticado na sinagoga de Lisboa e na grande maioria das sinagogas europeias, os homens têm ainda um papel preponderante na condução da cerimónia: as mulheres estão sentadas num estrado acima e a oração colectiva só se realiza com um mínimo de dez homens (e não dez mulheres) presentes. Também no rito ortodoxo, as mulheres estão impossibilitadas de ser rabinas e cantoras de sinagoga, ao contrário do que já se passa nos Estados Unidos da América e em alguns países da América do Sul, onde o rito reformista atribui a mesma importância a ambos os sexos.  Sobre a possibilidade dela própria abraçar a função de rabina dentro da sua comunidade, Esther Mucznick assume que a ideia a seduz: “Por que não? É uma função muito bonita e muito importante.”

Para além da impossibilidade de serem rabinas, segundo o rito ortodoxo, a discriminação perpetuada pelo judaísmo também é sentida ao nível da própria linguagem. Em hebraico, a palavra baal (marido) é também sinónimo de dono, patrão ou proprietário, aspecto que Esther Mucznick desvaloriza, alegando que já ninguém recorda o seu significado literal. Por outro lado, todas as manhãs, os judeus ortodoxos rezam ainda: “Bendito sejas tu, Eterno, nosso Deus, rei do universo, que não me fizeste mulher”, enquanto as mulheres proclamam submissas: “Bendito sejas tu, Eterno, nosso Deus, rei do universo, que me fizeste segundo a Tua vontade.” Assumindo que as correntes reformistas e ela própria já não pronunciam estas orações, a vice-presidente da CIL afirma que o judaísmo é uma religião muito antiga (com quatro milénios de História), que reflecte o contexto em que foi criada. Ainda assim, Esther Mucznick gostaria que o papel secundário da mulher no culto fosse alterado.

 Com uma postura distinta da Igreja Católica relativamente à interrupção voluntária da gravidez e ao uso de métodos anti-concepcionais, Esther Mucznick sublinha que, para a religião judaica, a finalidade do casamento não é apenas a reprodução. Para os judeus, a plenitude do ser humano só se encontra na união entre homem e mulher: “Em minha casa, com os meus pais, nunca presenciei nenhuma atitude discriminatória do homem face à mulher e, talvez por isso, nunca tenha sido muito sensível aos movimentos feministas. As minhas amigas judias também pensavam da mesma forma. Para os judeus, homem e mulher só são completos quando se encontram.”

 

Faiza Erraoui - Viver o Islão no Ocidente

 Faiza Erraoui tem 28 anos, nasceu em Marrocos e é muçulmana. Veio viver para Portugal há dez anos, quando casou com um muçulmano 18 anos mais velho. Como manda a tradição, o casamento foi uma decisão conjunta, sua e da sua família. Na altura, pensava seguir o seu curso de Medicina, mas a vida trocar-lhe-ia as voltas e, ao chegar a Portugal, deixaria de estudar por imposição do marido.

 Actualmente, trabalha como tradutora de árabe para várias línguas, como português, inglês, francês e espanhol. Depois de ter enviuvado, passou a viver sozinha com a filha nos arredores de Lisboa. Respeitando os valores transmitidos pelos pais, afirma cumprir à risca todas as tradições da sua religião. Acorda diariamente às 6h30 para fazer as primeiras orações, que são cinco no total, não come carne de porco, nem consome bebidas alcoólicas e usa o hijab (lenço que envolve todo o rosto, tapando o cabelo). Na tentativa de preservar estes valores na geração futura, matriculou também a filha na única escola islâmica do país, em Palmela.

 Das cinco entrevistadas, Faiza Erraoui revela-se a mais directa e rígida nas respostas. Com voz e expressão doces, não hesita em afirmar: “Não mudaria nada na minha religião. Ela é perfeita.” Quanto à situação da mulher muçulmana, é variável consoante a região em que esta se encontra: “Cada país tem as suas formas de viver ou de acompanhar o Islão. Há países mais abertos e outros mais fechados. Marrocos é o mais aberto, por estar muito próximo da Europa. O pior será talvez a Arábia Saudita ou o Afeganistão.” Para Faiza Erraoui, o Islamismo atribui mais direitos às mulheres do que qualquer outra religião: “A mulher muçulmana lidera em mais situações do que o homem. O machismo e a cultura dominante é que dizem que a mulher é inferior, e não o Alcorão.”

 Na sua opinião, a poligamia é uma interpretação errada dos textos sagrados. Tendo o profeta Maomé sido casado com várias mulheres, Faiza Erraoui sublinha que isto apenas aconteceu pelo contexto histórico em que se encontrava: “Tratava-se de um período de guerra, em que os homens estavam a desaparecer. As mulheres ficavam sozinhas, com os seus filhos, e os homens tinham que casar com mais do que uma, para as conseguir proteger. Hoje em dia, os homens aproveitam-se disso para casarem com raparigas mais novas. Um homem com poder monetário acha sempre que tem o direito a casar com a mais bonita, para ter uma grande variedade em casa. Mas estas já não são as condições que o profeta colocou.”

 O discurso mais progressista, dentro da sua comunidade, faria acreditar que Faiza Erraoui seria uma muçulmana quase feminista, embora venha a provar o contrário: “Eu concordo que um homem se case com mais do que uma mulher, se a primeira não lhe puder dar filhos. Ele tem esse direito, desde que a primeira mulher aceite e vá acompanhando o assunto.” Por sua vez, a situação inversa parece-lhe um escândalo: “Uma mulher nunca pode estar casada com dois, três ou quatro homens, ao mesmo tempo. Como seria a questão dos seus filhos? A mulher é considerada o pilar da casa!” Efectuando uma clara distinção entre os sexos, Faiza Erraoui considera que as mulheres têm uma grande força sentimental, sendo que os homens dispõem essencialmente de força física. 

 Apesar de desejar que os muçulmanos fundamentalistas tratassem melhor as mulheres, considera certo que uma mulher seja apedrejada em praça pública em caso de adultério: “Isso está escrito no Alcorão. Se Alá, o criador, escolheu que fosse assim, quem sou eu para mudar? O apedrejamento funciona como um exemplo. Se acontecer uma vez, numa praça pública, cada mulher vai passar a ter mais cuidado.”

Por imperativos profissionais, Faiza Erraoui tem reuniões frequentes nas empresas com as quais colabora, acompanha regularmente grupos de estrangeiros de visita a Portugal, apoia algumas embaixadas e o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF). Afirmando-se como uma pessoa discreta e que não gosta de ser observada, faz questão de usar o lenço sempre que sai à rua: “Este lenço faz parte da minha maneira de ser. Eu tento vestir-me da forma mais adequada para uma mulher muçulmana, para não atrair olhares. Quanto menos chamar a atenção melhor. É preciso tapar um pouco da beleza.” Esforçando-se por vestir tons neutros ou escuros e roupas largas que não marquem a silhueta feminina, Faiza Erraoui não considera que este seja um sacrifício, pelo contrário: “Como tenho muita fé, tento dar o máximo pela minha religião.”

 Por último, no que concerne às questões polémicas que habitualmente dividem religião e sociedade, Faiza Erroui afirma que o islamismo não é contra a utilização de métodos anti-concepcionais, pelo que considera que a mulher é livre de decidir quantos filhos irá ter. Relativamente aos casamentos entre homossexuais, a postura já é outra e a sua resposta é irónica: “Se Deus considerasse que um homem se devia casar com outro homem e uma mulher com outra mulher, Ele não teria criado Adão e Eva, mas dois ‘adões’ ou duas ‘evas’.”

 

Tsering Paldron - O Budismo como forma de ser

 Tsering Paldron, ou Emília Marques Rosa, nasceu em Lisboa e é vice-presidente da União Budista Portuguesa. Tem 55 anos e reside no Porto, depois de vários anos passados na Bélgica e em França. Sendo o ensino parte fundamental da sua vida diária, é uma das principais mestras em Budismo e meditação, nos diversos cursos que a União vai facultando aos interessados.

 Os seus primeiros contactos com o Budismo seguiram-se à sua adolescência, fase em que possuía inúmeras inquietações e perguntas sem resposta: Qual é o sentido da vida? O que estamos aqui a fazer? Para onde vamos? Em 1973, por razões pessoais, deixou Portugal e foi viver para Bruxelas. O acaso, ou o karma, como diz, fez com que se cruzasse com o Budismo tibetano na pessoa de Lama Kunzang. Nas primeiras palestras que ouviu, teve a certeza de que tinha encontrado o caminho e as respostas às suas perguntas: “Percebi que não havia nada mais importante na vida do que alcançar a paz interior que me faltava, e tornei-me budista no ano seguinte.”

 Para Tsering Paldron, o que distingue o Budismo de outras religiões é o facto de esta não ser teísta (não crer em Deus). Por essa razão, prefere encará-lo como uma “tradição espiritual”, em vez de utilizar o termo “religião”: “O Budismo não se centra na ideia de um Deus, mas antes nas questões humanas essenciais - na vontade e na aspiração que os homens têm de serem felizes e realizados. Penso que, nesse aspecto, é uma tradição bastante diferente e um método de transformação pessoal.” Esta tradição, no dizer da vice-presidente da União Budista Portuguesa, está vocacionada para oferecer aos seres humanos as ferramentas necessárias para que estes possam realizar uma transformação interior, que lhes permita ver o mundo de outra forma e viver mais realizados: “O Budismo é mais do que uma filosofia, que se limita muito ao mundo das ideias e dos conceitos. O Budismo é uma arte de viver.”

 Não se tratando de uma tradição dogmática, Tsering Paldron sublinha que não existem axiomas nos quais um budista tenha que acreditar: “O Budismo não tem que ser uma profissão de fé, mas é evidente que existem certos princípios. Um deles é o reconhecimento de que todos os seres humanos têm, em si, o potencial de se desenvolverem plenamente, ou aquilo a que chamamos ‘potencial de Buda’.” Assim sendo, homens e mulheres são vistos de igual forma por esta religião (ou tradição espiritual): “Buda sempre disse que o potencial de atingir o Estado de Buda não era exclusivo de uma raça, cor, casta ou sexo. Qualquer homem ou mulher pode atingi-lo.”

 No entanto, a imagem pública do Budismo é também associada ao sexo masculino: nunca existiu uma mulher Dalai Lama e a maioria dos monges tibetanos são homens. Segundo Tsering Paldron, isso tem a ver com as sociedades: “O Budismo desenvolveu-se na Índia há 2.500 anos, quando as mulheres não tinham qualquer autonomia, não eram aceites nas comunidades espirituais e nem sequer tinham liberdade para se deslocar se não fossem acompanhadas por um homem. Independentemente de Buda ter dito que as mulheres tinham tanto potencial para fazer um caminho espiritual como os homens, a sociedade não lhes reconhecia esse estatuto ou liberdade.” Estabelecendo uma analogia, Tsering Paldron relembra que a situação é semelhante ao facto de não existir nenhuma lei na Constituição da República que proíba uma mulher de ser Presidente da República: “Ainda assim, nunca houve nenhuma. Não é culpa da Constituição, nem dos princípios que regem o Estado português. Mas, penso que, se uma mulher se candidatar, as pessoas vão pensar que ela não tem tanta capacidade ou disponibilidade como qualquer homem. Ainda que não assumam directamente por que razões não votariam numa mulher, o facto é que não votariam, a priori.”

 Para Tsering Paldron, Buda foi assim um grande precursor para a sua época, em termos de eliminação das distinções entre homens e mulheres. Não atribuindo especial importância à situação da mulher na religião, uma vez que encara todos os seres humanos de forma igual, a vice-presidente da União Budista Portuguesa reconhece que a igualdade neste campo está longe de ser uma realidade: “Nos encontros inter-religiosos em que participo, é muito frequente eu ser, não apenas a única representante de uma religião sem Deus, mas também a única mulher.” Questões que se esperam ver debatidas (e alteradas) neste centenário do Dia Internacional da Mulher. Será necessário esperar mais cem anos para que se comecem a sentir sinais de mudança?

Ana Catarina Pereira

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