Designer por uma causa

  Numa sociedade justa e igualitária, as minorias têm sempre necessidades especiais que importa satisfazer. A solução pode passar por uma variante do design com múltiplas denominações: design acessível, design inclusivo ou design for all.

 

 Contrariando estereótipos, esta é uma variante que conjuga factores distintos dos tradicionalmente associados ao design: dinheiro e estética. Para Henrique Cayatte “ela materializa a ideia de que o design deve ser para todos, especialmente para aqueles que são portadores de algum tipo de deficiência.” Na opinião do presidente do Centro Português de Design (CPD), falamos de uma matéria complexa, por se confrontar com ideias pré-concebidas, mas que tem vindo a somar um número crescente de adeptos nas sociedades contemporâneas: “Recentemente”, afirma, “várias organizações e designers, muitos deles professores, têm vindo a teorizar sobre um novo paradigma. Se um objecto for pensado e produzido para os portadores de deficiência, este será certamente útil para todos os cidadãos.”

 Segundo Henrique Cayatte, o design inclusivo é uma das formas de melhorar o mundo em que vivemos: “Felizmente que a progressiva tomada de consciência sobre matérias antes arredadas do discurso político – como a defesa e a preservação do ambiente – leva a que haja mais pessoas, organizações públicas e privadas, entidades de ensino, professores, alunos e profissionais, a envolver-se e a pensar soluções que respeitem todos. E quando falo de todos é mesmo de todos.” Para o presidente do CPD é também urgente desmistificar a ideia de que o design é uma disciplina dedicada a outras minorias, por sua vez economicamente privilegiadas: “Design é projecto e acompanhamento de produção desse projecto, mas é também reflexão sobre a vida das pessoas e de como se pode melhorá-la.”

 Em todas as propostas que Henrique Cayatte apresenta, garante respeitar os princípios básicos do design inclusivo. Um dos momentos em que atingiu plenamente este objectivo foi quando concebeu o design do recinto da EXPO’98, em parceria com o arquitecto Pierluigi Cerri. Utilizando a investigação que estava a ser desenvolvida na Suécia, a dupla de profissionais disponibilizou um sistema fixo e portátil para cegos, realizado em plástico injectado a partir dos desenhos técnicos, que completava o Braille. Anos mais tarde, organizou também uma exposição para o Pavilhão do Conhecimento tendo como tema as deficiências auditivas, visuais e motoras. Propunha-se que os visitantes, especialmente os jovens, entrassem num perímetro onde eram recriadas barreiras que constituíam desafios a superar.

 

Um espírito contagiante

 Pelo entusiasmo com que fala destes e de outros projectos, percebe-se facilmente que Henrique Cayatte encara o design inclusivo como uma espécie de “missão” de todos os profissionais. Ideais como estes são, por sua vez, partilhados por designers de todo o país. Ao centro, na Covilhã, Madalena Sena provou recentemente que design de moda não se traduz apenas em organizar desfiles de roupas mais ou menos excêntricas.

 A primeira ideia surgiu quando frequentava o primeiro ano de mestrado em Design de Moda e, numa aula prática, a professora pediu aos alunos que criassem um produto que não existisse no mercado. O desafio parecia tão aliciante quanto difícil de concretizar, mas a experiência da maternidade recente despertaria em Madalena Sena a inspiração necessária para o superar: “Lembrei-me que, nos dias que se seguem ao nascimento do bebé, as mulheres estão cansadas e debilitadas. Apesar disso, passam muito tempo a vestir os filhos e a prepará-los para novas intervenções das enfermeiras, entre banhos, mudanças de fraldas e vacinas. Isso deu-me uma ideia. Pensei que deveria existir um fato completo que substituísse toda a roupa que o bebé tem que vestir, como o body, os collants, a camisola, as botinhas e as calças ou a saia...”

 Assim surgiu o Kokoon First Day Kid – o nome que a designer daria ao protótipo de babygrow então criado, com todas as aberturas necessárias, nos braços e pés, para que o bebé não tenha que ser despido de cada vez que leva uma vacina. Esta peça dispensa todas as outras, uma vez que é feita em duas camadas de algodão biológico, o que permite um contacto com a pele do recém-nascido, não provoca alergias e é adequado à temperatura média de hospitais, clínicas e centros de saúde (que ronda os 25 graus centígrados). O protótipo já foi testado em dois locais: no Centro Hospitalar da Cova da Beira, na Covilhã, e na Maternidade Bissaya Barreto, em Coimbra. Em ambos, médicos e enfermeiros aprovaram totalmente a inovação, garantindo que o bem-estar da mãe e do bebé seria melhorado.

 A recepção positiva foi gratificante, o que levou Madalena Sena a tentar melhorar o quotidiano de outros grupos sociais. No ano seguinte, quando realizou a sua tese de mestrado, teve como objectivo principal ajudar os invisuais que se preocupam com a sua aparência: “É um aspecto do qual ninguém se lembra, mas os cegos, tal como nós, gostam de estar bem vestidos e de ter uma boa apresentação em público.” A ideia, mais uma vez, surgiria do espírito observador da designer: “Geralmente, nas lojas, existem muitas peças iguais, em cores diferentes. Mas, por vezes, a luz não é a melhor para as reconhecermos e combinarmos com outros artigos que já tenhamos em casa. Isto levou-me a pensar que, caso visse mal ou fosse cega, teria ainda mais dificuldade em me vestir adequadamente.” Depois desta constatação, Madalena Sena resolveu criar uma etiqueta em Braille que especifica as cores de cada peça: “Desta forma, uma pessoa cega não precisa de decorar todas as cores das roupas que tem no armário e já não vai combinar dois tons que, à partida, não ficam bem juntos. Muitos invisuais nem sequer vão às compras porque não gostam de incomodar os outros. Se esta etiqueta existisse, eles teriam muito mais autonomia.” A confirmação chega-lhe da parte das próprias associações de cegos com que Madalena Sena foi contactando ao longo do desenvolvimento do projecto: “Todas acharam a ideia muito útil para o dia-a-dia e pediram-me para vender a patente o mais rapidamente possível.” Apesar de já terem existido alguns contactos de empresas, a designer aguarda a compra das duas patentes registadas.

 

Design para daltónicos

 Mais a Norte, Miguel Neiva é responsável por um atelier de Design de Comunicação e Equipamento, no Porto, e professor no mestrado de Comunicação de Moda, na Universidade do Minho. No ano de 2000 propôs-se revolucionar a difícil tarefa diária de vestir para os daltónicos, criando a etiqueta ColorADD, na qual se encontra descrita a cor de cada peça de roupa. O projecto surgiu também no âmbito da sua tese de mestrado, tendo como objectivo inicial criar algo útil para uma minoria da sociedade. Exercitando a memória, recordou-se de um antigo colega, daltónico, que frequentemente aparecia na escola com uma meia de cada cor, e dos consequentes embaraços que a situação lhe causava.

 Passando à fase de investigação, Miguel Neiva deparou-se com alguns problemas: “Nada tinha sido feito até ali na tentativa de minorar os constrangimentos dos daltónicos, o que tornava este projecto peculiar e pertinente.” Por outro lado, foi difícil começar a contactar daltónicos que se disponibilizassem para responder a algumas questões prévias: “Procurei no INE (Instituto Nacional de Estatística), em várias organizações e entidades a nível mundial, e nada! Só encontrava valores estimativos - o que justifico pelo facto de o daltonismo ser uma limitação ‘não visível’ aos olhos dos outros.”

 Mas o designer não desistiu: por e-mail lançou um repto aos seus colegas e amigos solicitando contactos de daltónicos que estivessem disponíveis para colaborar no projecto. Três meses depois tinha conseguido criar uma plataforma com um número significativo de voluntários dos quatro cantos do mundo. Por questionário, todos eles responderam a questões relacionadas com a sua limitação, a forma como a procuravam gerir individual e socialmente, as principais dificuldades com que se deparavam no dia-a-dia e o seu nível de auto-confiança: “Os resultados foram de tal modo assertivos que reforçaram a necessidade de conceber um código para daltónicos que permitisse a identificação de cores.  Curiosamente, passados mais de dois anos, continuo a manter contacto com algumas destas pessoas que têm acompanhado (e até participado) em diversas acções de divulgação do projecto.” Quanto às reacções do mercado e do público em geral, o designer mostra-se surpreendido: “É incrível, motivador e extremamente gratificante ler referências em centenas de artigos e posts espalhados pela blogosfera.  Ainda hoje continuo a receber mails dando os parabéns pela eficácia da solução e pelo contributo que ela trará para a melhoria da qualidade de vida dos daltónicos.”

 Para Miguel Neiva, a etiqueta é assim um exemplo de design inclusivo, que poderá ajudar não apenas os daltónicos, mas a todos os cidadãos em geral. Quem nunca teve dúvidas acerca da verdadeira cor de algumas das peças de roupa que mais gostam? Futuramente, o designer espera continuar a garantir a correcta aplicação e divulgação da etiqueta ColorADD, bem como a acompanhar a sua inserção em diversos suportes. Tudo isto porque, tal como muitos dos designers referidos nesta edição, acredita num mundo mais justo e igualitário. Um mundo que pode alcançar-se através do design inclusivo, ou do design para todos.

Os 7 princípios do design inclusivo, criados pelo Center of Universal Design, da Universidade da Carolina do Norte, EUA:


 1.Uso equitativo
 2.Flexibilidade
 3.Uso intuitivo e simplificado
 4.Informação perceptível
 5.Tolerância a erros
 6.Mínimo esforço
 7.Tamanho e espaço para utilização e aproximação adequadas

Ana Catarina Pereira

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