Planisfério místico

 Quanto vale uma previsão do futuro? O mesmo que um conselho? Menos? Por que razão, algumas pessoas não dão um passo sem consultarem um astrólogo ou cartomante? A orientação espiritual é uma necessidade, um conforto em situações de maior impacto emocional, ou um negócio em vias de expansão, num século paradoxalmente materialista?

 Para tentar responder a algumas destas questões, a Happy consultou três «especialistas na matéria». Nas cartas, nas linhas da mão ou no mapa astral, os destinos de uma jornalista de 27 anos deixam de parecer um mistério. Uma viagem por universos ocultos onde reencontramos o sentido das nossas existências, ou um conjunto de previsões demasiado vagas e catastróficas?

 

O futuro através das cartas

 Para realizar esta reportagem, levo na mala algumas doses de cepticismo, misturadas com uma enorme curiosidade. Um cartomante, um quiromante e uma astróloga tentarão elaborar um retrato exaustivo da minha personalidade, com algumas previsões de futuro. Identifico-me como jornalista, mas dirijo-me aos três consultórios a título meramente pessoal, com as dúvidas e questões susceptíveis de serem colocadas por qualquer mulher de 27 anos, sem objectivos noticiosos. Realizações pessoais e profissionais, amor, saúde e dinheiro são os tópicos comuns, e a minha curiosidade não vai ser excepção.

 Num fim de tarde de segunda-feira, dirijo-me ao consultório de um dos mais mediáticos astrólogos do país. Nas paredes da sala de espera estão afixados recortes de jornais e revistas com imagens de figuras públicas que parecem justificar o preço (€ 110) e a dificuldade em marcar consulta. À hora marcada, entro para um gabinete pequeno e demasiado quente, com luz natural. O astrólogo-cartomante tem um ar misterioso e o olhar perscrutador de quem se treina diariamente para retratar psicologias comportamentais (como convém ao personagem).

 Em cima da mesa está uma toalha de veludo com os 12 signos do zoodíaco e um baralho de cartas. A conversa introdutória é curta. Mostro duas fotografias de familiares próximos, revelo o nome completo, a data de nascimento e a formação académica (não me pergunta a profissão). Divido o baralho de cartas com a mão esquerda e o cartomante espalha-as sobre a mesa. Olha para mim e afirma: «está muito confusa». Até pode ser verdade, mas não será esse o caso de todas as pessoas que o visitam? Alguém pede orientação a um astrólogo, se não tiver dúvidas ou questões existenciais? Pergunto-lhe a que se refere, concretamente. Diz-me que tenho um forte bloqueio emocional, que me limita todas as escolhas futuras.

 Os primeiros momentos já se revelaram algo apocalípticos, mas prosseguimos: «a Ana marca as pessoas, pessoal e profissionalmente, mas não acredita nisso. Os seus pais e amigos estão preocupados consigo, às vezes já nem sabem o que lhe hão-de fazer.» Pergunta-me ainda por que razão tenho problemas com o meu pai. Respondo-lhe que não tenho, mas desconfia.

 E será que vou conseguir ultrapassar este bloqueio? A resposta é evasiva, como toda a consulta: «Se quiser sim, mas tem que se predispor a fazê-lo. Não seja inimiga de si própria.» Começo a ficar impaciente. Gosto da noção de livre-arbítrio, mas quero sair dali com previsões mais concretas. Ao que parece, vou ser mãe de filhos (dois ou mais) e vou ter um relacionamento duradouro, para toda a vida. Tarefa difícil nos dias que correm, sobretudo para quem tem um bloqueio emocional tão grande. Prémio de consolação por todo o dramatismo anterior? Ainda não. Vou encontrar esta estabilidade, a par com algumas realizações profissionais que não consegue especificar, quando (adivinhe-se) ultrapassar o bloqueio. Vago e abrangente, deixa-me uma certeza: o meu destino não se encontra nas cartas, mas nas minhas mãos. Por essa razão, talvez faça mais sentido consultar um quiromante.

 

As linhas da mão

 A leitura das mãos é a forma mais antiga de prever o futuro. Para os quiromantes, estas linhas traçam o nosso passado, presente e futuro. Na esperança de uma definição mais concreta, dirijo-me ao consultório de um «especialista». As paredes brancas, as cadeiras de plástico e o televisor na sala de espera assemelham-se a muitas repartições públicas do país. O quiromante tem uma aparência discreta, de meia-idade, estatura média, óculos e bigode: qualquer semelhança com um bruxo é mera coincidência.  A consulta é significativamente mais barata (€ 25) e dura o dobro do tempo (uma hora).

Depois de me determinar o signo (virgem) e o ascendente (gémeos), analisa-me as mãos e afirma: «Tem tido, até há pouco tempo, uma vida familiar muito complicada. Mas não se preocupe, porque a situação vai melhorar progressivamente.» Diz-me que tive uma relação marcante no passado, da qual me recordo frequentemente (confirmo, mas quem é que aos 27 anos não teve uma relação marcante?).

 Nos meus relacionamentos futuros, prevê que vá ter sempre o mesmo problema: a maioria das pessoas pensa primeiro «eu», depois «nós» (família e amigos) e em terceiro lugar «os outros», enquanto eu tenho uma forte noção de mim própria, mas coloco «nós» e «os outros» ao mesmo nível. O facto de ter que viajar com muita frequência e ter uma profissão exigente também podem constituir obstáculos a uma relação e pergunta-me se não me deparei já com algumas destas questões. Sim, mas também não devo preocupar-me porque (surpresa das surpresas) a minha vida sentimental vai ser bem agitada: dois casamentos, dois ou mais filhos e algumas relações extra-conjugais. O meu ascendente em gémeos faz de mim uma pessoa infiel, pelo que devo aprender a gerir situações deste tipo, sem sentimentos de culpa.

Vamos por partes: a descrição do meu foco de atenção no «nós» e nos «outros» corresponde ao meu perfil, e já originou algumas crises em relacionamentos anteriores, mas a infidelidade, pelo menos até hoje, nunca foi a minha principal característica. De qualquer forma, esta segunda previsão parece-me muito mais Happy. Mais: os próximos tempos serão de muitas realizações profissionais e um acontecimento próximo irá marcar a minha total independência económica, que poderá ser um investimento ou um negócio próprios. Resta-me esperar e ser paciente.

 

As estrelas há 27 anos atrás

 Para os astrólogos, a posição das estrelas no momento do nascimento determina a personalidade, opções e rumo de vida de alguém, e pode ser retratada através do mapa astral. O meu foi traçado num consultório de um bairro central de Lisboa, onde a decoração zen é recriada por móveis de madeira escura, tecidos em tons laranja, velas e incenso. A astróloga, alta, magra e de jeans, desconstrói o meu imaginário de videntes sobrecarregadas de maquilhagem, penteados empastados de laca e roupas exuberantes.

 No mapa, sou descrita como uma pessoa objectiva e racional, com um lado sensível difícil de gerir. Sou pragmática, trabalhadora, com grande resistência ao stress e adapto-me facilmente a novos desafios, mas tenho dificuldade em conciliar todas as sensações que vivo intensamente. É um facto. Tenho bons amigos e faço questão de manter os laços familiares, preocupando-me bastante com ambos (também confirmo). Em termos de saúde não há registo de nenhum problema grave, nem no passado nem no futuro.

 Profissionalmente, gosto de sentir que o meu trabalho é útil, com resultados práticos e imediatos, mas também lúdico (é verdade, parece que me estou a ver ao espelho) e as previsões são de que encontre as duas vertentes nos desafios que se aproximam. Como o quiromante já havia prognosticado, vão ser dois a três anos muito preenchidos, com desafios compensadores.

 Quando encontrar a estabilidade profissional, será a vez de me realizar noutro campo. Em termos afectivos, a previsão é semelhante à do quiromante: vou ter dois relacionamentos importantes na vida, com duas pessoas que provavelmente ainda não conheço, e filhos (em princípio dois, talvez mais).

No final são 70 euros e uma certeza: posso começar a escolher os nomes das crianças. Duas ou mais, quem adivinha?

Ana Catarina Pereira

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