Doce Beira

Os prazeres da vida na aldeia, entre o Caramulo e a Estrela

 Saio de Lisboa e rumo a norte, contrariando o fluxo natural dos turistas nacionais. Em pleno Verão, optar por umas férias no interior do país, numa aldeia recôndita que não vem no mapa, pode parecer estranho para alguns. Fernando Pessoa diria «Primeiro estranha-se, depois entranha-se», e neste caso, não poderia estar mais de acordo com o poeta.

 A quinze quilómetros de Viseu fica Póvoa Dão, a aldeia que me irá receber sem êxtases, quartos luxuosos ou prédios em altura, com varandas que disputam entre si a vista para o mar. À minha volta não encontro restaurantes com ementas em todas as línguas da União Europeia, nem outras fantasias para agradar turistas estrangeiros. Em vez disso, sou recebida com conforto e aconchego, comida típica e passeios ao ar livre. E adoro cada momento.

 

Turismo de Aldeia

 Os primeiros registos históricos da aldeia têm mais de sete séculos. Em 1995, quando foi iniciado o processo de reconstrução, as trinta casas estavam em ruínas e a aldeia tinha apenas dois habitantes. Não havia luz eléctrica ou água canalizada.

 Hoje, quase todas as casas estão recuperadas, cedendo aos confortos da vida moderna, com aquecimento e televisão por cabo, mas preservando os encantos de antigamente. A traça original foi mantida nas casas, na capela, nas ruas da aldeia, nos largos e fornos comunitários.

 Da varanda da minha casa tenho montanhas a perder de vista. Estou perto das serras da Estrela e do Caramulo, à beira do rio Dão. À minha frente estão as terras que inspiraram Aquilino Ribeiro ou Vergílio Ferreira, e demoramos pouco tempo a perceber porquê.

 No interior da casa, a decoração foi pensada ao pormenor, com móveis rústicos de muito bom gosto. Arcas de madeira antiga, sofás confortáveis e cadeiras de verga estão cuidadosamente arrumadas, frente a uma lareira que fará a delícia dos casais que por aqui passarem no Inverno.

 

Caminhos da Natureza

 Ao fim da tarde, a temperatura amena convida a um passeio pelo bosque. A aldeia está situada numa propriedade com 120 hectares e a densidade das árvores torna a temperatura amena.

 A caminhada, o verde e o rio abrem-me o apetite. O restaurante em pedra tem uma enorme cozinha, aberta sobre a sala, com forno a lenha. As várias salas estão divididas em compartimentos e recantos, que outrora constituíram a adega e as lojas de animais da aldeia.

 Da ementa fazem parte os melhores pratos regionais. De entrada, enchidos e salada de polvo antevêem uma refeição majestosa. De prato principal, opto por Bacalhau com Broa, embora os apreciadores de carne tenham muito por onde escolher (eu recomendo a Lagarada de Lombinhos de Porco). De sobremesa perco-me com um gelado caseiro, de morangos biológicos da quinta. Verdadeiramente delicioso!

 De regresso ao conforto desta casa que hoje é minha, não posso deixar de me sentir assim mesmo: «em casa». O espaço é fresco mesmo no Verão, e não dispenso o cobertor durante a noite. Os candeeiros de ferro forjado, com estrelas recortadas, espalham um pouco de céu pelo quarto e vem-me à memória um refrão de Ella Fitzgerald: «Heaven, I’m in heaven…»

 No dia seguinte mergulho na piscina, depois de um substancial pequeno-almoço, com pão caseiro e requeijão com mel. Antes de regressar, ainda tenho tempo para me perder pelas ruas da aldeia e despedir-me de todos os cantos, desta minha doce Beira. Ao fechar a porta já me invadem as saudades…

 

 

Coordenadas:

Póvoa Dão

3500 – 546 Silgueiros

Viseu

Tel. 232 958 557

www.povoadao.com

Ana Catarina Pereira

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