Hipnose: terapia de saudades

 

 São 14:30 da tarde. No telemóvel ficam registadas algumas chamadas que não consigo atender. A ansiedade começa a crescer, momentos antes de embarcar numa «experiência diferente». Sim, penso que lhe posso chamar assim: não serão todos os dias que entro num consultório médico e me proponho fazer terapia de regressão.

 O tema da reportagem foi sugerido por mim. Os números de pessoas que deixaram de fumar ou que perderam o medo de andar de avião, depois de se submeterem a sessões de hipnose, suscitavam a minha curiosidade jornalística. Mas os meus conhecimentos sobre a terapia eram, como viria a comprovar, reduzidos e muito cinematográficos. No meu imaginário, recriava um consultório com uma decoração mística, onde um homem com um aspecto exótico e um pêndulo me faria sentir uma imperatriz da Rússia, um índio da Amazónia ou uma caçadora de crocodilos em plena savana africana. Ainda assim, as minhas dúvidas persistiam: será que alguém abandona um vício ou ultrapassa uma fobia que teve durante anos por descobrir ter encarnado todos estes seres em vidas passadas? E os mais cépticos, para quem a reencarnação não passa de uma fantasia ilógica, terão alguma possibilidade de cura?

 

Expectativas e receios

 No dia anterior, as pessoas a quem revelo que irei iniciar terapia de regressão, fazem-me invariavelmente a mesma pergunta: «Não tens medo?». De descobrir coisas sobre vidas passadas? Não, absolutamente nenhum. Até prova em contrário, acredito essencialmente que devo desfrutar desta vida: sobre outras (anteriores ou posteriores) não tenho quaisquer certezas.

 O único receio era relembrar (ou descobrir) factos passados sobre a vida presente, que depois seriam tema central desta reportagem. A exposição pessoal foi a minha única preocupação, pelo que salvaguardei até ao fim a possibilidade de escrever sob pseudónimo. Não chegou a ser necessário, porque as surpresas ultrapassaram os medos.

 Antes de marcar a consulta, defino os motivos pelos quais me irei submeter à terapia. A tarefa de escolher um problema que, de alguma forma, me afectasse em termos pessoais ou profissionais também não foi fácil. Não gosto de ambientes fechados ou com uma grande concentração de pessoas, mas não se trata propriamente de uma fobia. Detesto berros e discussões, mas também ninguém adora. Como não fumo nem tenho medo de andar de avião, as minhas hipóteses estavam a ficar reduzidas.

 Optei por dar ouvidos a alguns amigos que me consideram pouco auto-confiante e com um baixo nível de auto-estima. Admito que têm razão: o problema não me afecta propriamente em termos profissionais, onde dou provas de segurança e acredito que tenho valor, mas já causou alguns estragos na vida pessoal, na minha relação com os outros e comigo própria. A situação não atinge proporções assustadoras, mas gostaria que melhorasse. Se, por um lado, tenho consciência que todas as mulheres têm fases em que se sentem menos bonitas ou mais inseguras, por outro também considero que esta minha fase já foi demasiado prolongada. Racionalmente, consigo elaborar um discurso convincente: não tenho razões para não gostar do que vejo ao espelho. Emocionalmente, nem sempre é fácil acreditar.

 

Muitos casos semelhantes

 No consultório a que me dirijo, um médico terapeuta parece compreender perfeitamente a situação e assegura-me que já teve muitas pacientes com o mesmo problema. Antes de iniciarmos a sessão, coloca-me algumas questões pessoais sobre relacionamentos anteriores, família e amigos mais próximos. A situação parece-lhe simples de se resolver: «Basta irmos à raiz do problema, tentar descobrir quando foi a primeira vez que se sentiu assim. Para isso, nem sequer vamos regredir a vidas passadas». «Não?», pergunto desiludida, para rapidamente me dar conta da minha ignorância neste tema.

 A sessão de hipnose clínica a que me irei sujeitar nada tem a ver com um pêndulo irritante, que se move de um lado para o outro, até me fazer perder os sentidos. Nas cerca de duas horas que durou a sessão de terapia nunca saí do meu estado consciente. Mesmo sem revelar que estou a fazer uma reportagem, não resisto a colocar algumas questões: «Não existe o risco das pessoas mentirem, uma vez que estão sempre conscientes?» Responde-me que não, e que se o fizerem apenas estarão a diminuir as suas hipóteses de tratamento: «é importante que as pessoas queiram fazer esta terapia, para que ela resulte», acrescenta.

 Para além disso, o médico explica-me um aspecto relevante: a distinção entre hipnose clínica (que ajuda a ultrapassar fobias ou traumas psicológicos) e a hipnose cénica ou de palco (que corresponde à ideia cinematográfica que temos de hipnose e onde normalmente existe uma perda total dos sentidos).

Fins jornalísticos à parte, continuo a pretender que a imagem que tenho de mim própria (e que transmito aos outros) seja melhor, portanto disponho-me a iniciar a sessão com uma balança equilibrada: de um lado uma imensa ansiedade e, do outro, uma enorme vontade que as coisas resultem.

 

Sessão de cinema na primeira pessoa

 Sento-me num sofá confortável, com as pernas esticadas, enquanto uma música chill out invade o espaço. Sigo as instruções do médico, fecho os olhos, tento relaxar cada músculo do meu corpo e vou inspirando e expirando calmamente. Inicio uma «viagem» que irá deixar algumas marcas no meu comportamento futuro.

 São-me dadas duas opções de destino: imaginar-se num local, real ou imaginário, onde me sinta bem e segura. A escolha foi fácil e quase instintiva. Todos temos um refúgio próprio, e é para lá que viajo. O verde, as montanhas e o lago à minha frente tranquilizam-me.

 Com uma voz suave e anestesiante, o médico pede-me para visualizar três ecrãs, dispostos à minha frente. No da esquerda está o passado, ao centro o presente e no da direita o futuro. Concentro-me no primeiro ecrã e retrocedo alguns anos: «ainda não tem 27 anos nessa imagem, tem 24, o que está a fazer?». Como flashes, aparecem algumas imagens, sem que me esforce para isso. Descrevo o que vejo, e retrocedo mais alguns anos, aos 22 anos, aos 20, aos anos da faculdade. Revejo alguns colegas e situações das quais pensava já não ter memória.

 Com 18, 17, 16 anos, vejo os amigos de liceu. Aos 15, 14, 13, 12, os primeiros amores, a entrada na adolescência e os primeiros problemas de auto-estima? Não. Continuo a recuar, 10, 9, 8, 6 anos, a escola primária. O cabelo curto e uns caracóis rebeldes, diferentes das meninas com cabelo liso, lacinhos, fitas na cabeça e vozes estridentes. «Mas acha que elas são mais bonitas que a Ana Catarina?». Sim, acho que sim. «E agora, sabe como são elas com 27 anos? Continuam a ser assim tão bonitas?». Pensando bem, talvez não. Talvez nem fossem nessa altura, mas eu achava que sim.

 O médico pede-me para recordar alguns momentos bons do mesmo período, passados na escola. Relembro um concurso de máscaras, as composições sem erros e com imaginação, e uma professora que já antevia, de certa forma, o futuro: «tu escreves muito bem Catarina». Relembrei os nomes e rostos de todos os colegas, os lugares onde nos sentávamos nas carteiras, as histórias de cada um. Memórias que já não sabia existirem e que visitei sem esperar. Invade-me um turbilhão imenso de sensações: conforto, saudade, ternura, tristeza, melancolia.

 

Resultados práticos

 Mas o estado de hipnose não acaba aqui. Identificados os primeiros momentos de baixa auto-estima, o médico tenta prolongar as boas memórias e mentalizar-me que não existem razões para me sentir assim. Começo a ter saudades de um tempo em que era, afinal de contas, feliz.

 Em seguida, olho para o ecrã central, onde me visualizo no presente. O médico pede-me para me imaginar com um véu ou uma luz envolvente. A sensação é agradável e muito reconfortante. Perco a noção do tempo e apetece-me permanecer ali. Danço com o véu, e sinto-me bem. Quando reabro os olhos, o médico pergunta-me imediatamente como me sinto, mas não sei o que devo responder. «Isso não existe, “o que devo dizer”. Se não quiser, não precisa dizer nada. Não falou muito durante a hipnose, mas foi muito expressiva. Está triste?» Triste, não. Melancólica ou nostálgica, talvez. Responde-me que é normal: «quando partimos numa viagem sem conhecer previamente o destino podemos deparar-nos com várias surpresas (boas ou menos boas), mas dificilmente ficamos indiferentes.»

 Da primeira consulta, levo trabalho para casa: todas as noites devo tentar recriar aquela imagem do presente, em que me senti bem e segura. Na segunda sessão, irei viver as mesmas sensações, sem regredir a vidas passadas. Incapacidade minha ou puro cepticismo? Nenhuma das duas, explica-me. Pelos vistos, os meus problemas tiveram todos início nesta vida e as sessões deveriam continuar neste âmbito. Quem acredita na reencarnação faz-me invariavelmente o mesmo comentário: «esta deve ser a tua primeira vida.» Para mim, até prova em contrário, continua a ser a única.

De regresso a casa, no final da primeira sessão, consigo retribuir as chamadas que não tinha atendido. Do outro lado, perguntam-me se estou bem e como correu a experiência. «Foi… estranho. Não sei bem o que estou a sentir» Tento resumir o que aconteceu e a reacção é optimista: «Estou curioso para te ver e para ler a reportagem. Viveste isso intensamente, parece já ter começado a resultar.» Espero que sim. Se voltasse atrás, repetia a experiência? Claro que sim, afinal de contas tenho muitos mais motivos para ser feliz do que conseguia recordar.

Ana Catarina Pereira

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