O Nome da Rosa

 Deixar as preocupações do lado de fora das pesadas portas do mosteiro torna-se uma exigência, e não cumpri-la seria um sacrilégio.

 Buscando inspiração em Umberto Eco, podia dar a estas linhas o título de um dos seus livros. «O Nome da Rosa» faz parte do nosso imaginário de um mosteiro e de uma vida dedicada ao espírito, com algumas cedências ao corpo. Mas se nos séculos passados as tentações traziam consigo sentimentos de culpa e pecado, visitar hoje esta pousada é entrar numa atmosfera de paz e tranquilidade.

 

Sensações sagradas

 As origens do mosteiro têm uma definição incerta. Pensa-se que este mesmo local da vila de Amares constituía, no século VIII, refúgio de um grupo de eremitas da Ordem de São Bento. Num retorno à simplicidade e ao puritanismo, fundaram a Ordem de Cister, em 1098. Os monges brancos, como eram também chamados, edificavam os seus mosteiros em áreas isoladas e silenciosas, pelo que a escolha deste local ainda hoje me parece perfeita. A Serra do Gerês tem estatuto de Parque Nacional, que lhe reserva o direito à não intervenção humana nas áreas protegidas. Corpo e espírito dos hóspedes que por aqui passam agradecem.

 A pousada de Santa Maria do Bouro foi recuperada pela mão de Eduardo Souto Moura. Tal como os antigos conventos e mosteiros, o edifício foi construído com janelas pequenas que evitavam o contacto com o exterior e com as tentações mundanas. No entanto, o arquitecto não quis ser fiel à traça original, e procurou antes trabalhar um edifício adaptado às modernas exigências de conforto. A explicação para este arrojo encontro-a num dos livros sobre a história da pousada, em que Souto Moura afirma categoricamente: «Não estou a restaurar um mosteiro. Estou a construir uma pousada com as pedras de um mosteiro.» Desta forma, as ruínas foram a matéria-prima, que manipulou com arte e originalidade.

 

Sonos tranquilos

 Ao centro, o claustro é cercado por longos corredores que, no piso inferior, dão acesso às áreas comuns e, no segundo piso, às antigas celas, que hoje são os quartos da pousada. São pequenos? Diria mais aconchegantes. Pelas janelas amplas entra um verde imenso e é impossível não ceder à paz que este local me transmite.

 Como viajante, não sou a eterna deslumbrada, mas antes uma optimista por natureza. Aprecio as coisas boas da vida e, nesta pousada, não tenho que me esforçar para as encontrar. A referência a tempos passados está presente em todos os espaços. A decoração é minimalista, mas perfeitamente cuidada: respeita o despojamento monástico, mas não deixa nada ao acaso.

 No exterior, o grande tanque de armazenamento de água e o antigo sistema hidráulico de canais foram mantidos. Ao fundo, na piscina construída em anfiteatro, aproveito alguns raios de sol. As laranjeiras e as latadas percorrem os terrenos à volta.

 E porque em Portugal a gastronomia é sempre levada muito a sério, e em regiões como o norte é mesmo considerada uma arte, a pousada reúne os ingredientes necessários para deliciar os espíritos mais críticos. O restaurante foi construído na antiga cozinha do mosteiro e a luz natural que invade o espaço durante o dia é quase mágica.

 De entrada, alheira de caça com legumes da horta e maçã ou papas de sarrabulho com estaladiço de pão são óptimas antevisões do que se segue. As sugestões da Chef são bacalhau à moda do Convento de Bouro e arroz de cabrito «mamão» no tacho. Qualquer que seja a opção, fica a promessa de um manjar divino. Depois, a mesa de doces garante que cairá em tentação quem dela se aproximar. Sopa dourada, molarinha de rendufe, pudim de abade de priscos, papos de anjo, mousse e tarte de chocolate são sobremesas, literalmente, divinas. Como todos os prazeres oferecidos pelo mosteiro, nestes momentos que quero repetir, o mais brevemente possível.

 

 

Coordenadas

Pousada de Amares

Santa Maria do Bouro

4720 – 688 Amares

Tel. para reservas: 21 884 20 01

www.pousadas.pt

Ana Catarina Pereira

 

 

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