Vale encantado

 Um labirinto de saudades, tão perto de Lisboa

 

 As origens deste edifício só o mar conhece. Testemunha nem sempre silenciosa (ou não estivéssemos nós em pleno Guincho) mas impossível de compreender. A hipótese mais provável será a de um antigo convento de eremitas, construído no século XII, à data da formação do Condado Portucalense. E se, no nosso imaginário, a estrutura de um convento corresponde sempre a um edifício austero, com paredes altas e frias, isso deixa imediatamente de acontecer, depois de uma visita a este espaço. O caminho para chegar é sinuoso, mas a promessa de recompensa é deixada no ar (e plenamente cumprida).

 

Mescla de culturas e ousadia

 No exterior, muros e paredes brancas, alpendres, varandas e esplanadas contemplativas conquistam-nos à primeira vista. A vegetação à volta é distribuída por socalcos, num jardim selvagem e indomável, com árvores e flores silvestres a perder de vista. À entrada, passeiam os animais da quinta: patos, gansos, galinhas, muitos gatos e dois burros.

N o interior a estrutura é labiríntica, com escadas que inventam cantos e recantos, onde apetece ficar. Os espaços estão divididos em patamares, percorridos por estreitos corredores de tijoleira vermelha e azulejos de inspiração árabe. A decoração revela um certo anarquismo, acompanhado das necessárias doses de sorte e bom gosto, que o tornam agradável e acolhedor.

 A escolha do mobiliário resulta das inúmeras viagens dos actuais donos do convento: móveis franceses e japoneses, conjugam-se com peças rústicas de origem portuguesa e pinturas clássicas figurativas. Imagens sacras, vitrais, utensílios em ferro forjado e pipas de vinho encontram-se espalhados pela casa.

 Na sala de estar, uma biblioteca com os clássicos europeus em várias línguas, faz a ponte com os hóspedes, que chegam sobretudo do norte da Europa e dos Estados Unidos. No ar paira uma música celta, que condiz com o ambiente.

 

 

Leveza e romantismo

 Estamos no Cabo da Roca, nas terras mais a ocidente do continente europeu. A 10 quilómetros daqui, Sintra resiste estoicamente ao conceito de periferia de Lisboa. E ainda bem. Os monumentos históricos da vila, a par das belezas naturais, tornaram-na Património Mundial da Humanidade.

 À noite, adormeço numa cama de dossel, com a certeza de um sono tranquilo. Ao amanhecer, depois de um substancial pequeno-almoço, decido explorar as redondezas, ideais para os amantes de caminhadas. Os percursos pedestres podem ser livres ou programados, mas sempre com uma vista em tons de azul e verde.

Antes de regressar, aproveito os últimos momentos para um mergulho na piscina que, escavada na pedra, constitui um miradouro privilegiado sobre o mar. Nada aqui entra em conflito com a natureza. A serra ostenta o título de Reserva Natural que, para bem dos nossos pecados, limita a intervenção do Homem ao estritamente necessário.

 Deliciada com o cenário, relembro um episódio perdido algures na adolescência, numa outra serra. Do alto do seu pragmatismo, um pastor ateu disse-me um dia: «Na montanha, não acontecem milagres e os problemas não se resolvem mais depressa. Mas aqui conseguimos pensar melhor, e é mais fácil encontrar soluções». Também os budistas falam da importância de um ambiente de paz e tranquilidade para se alcançar a harmonia entre corpo e espírito. Em Sintra, rodeada de mar e árvores que me transmitem boas energias, é impossível não concordar com ambos.

 A serra é sempre capaz de transformar qualquer réstia de melancolia em serenidade em estado puro. É impossível não ser feliz num local assim.

 

Coordenadas:

Convento de São Saturnino

2705 – 001 Azóia

Sintra

Tel. 219 28 31 92

www.saosat.com

 

Ana Catarina Pereira

This site was designed with the
.com
website builder. Create your website today.
Start Now