Madalena Sena

Projecto de vida: melhorar o mundo através do design

 

 Quem disse que, para salvar o mundo, é necessário ser-se médico, milionário ou voluntário numa expedição a África? Madalena Sena escolheu a profissão mais improvável para cumprir o mesmo objectivo. Em entrevista à Up, garante-nos que o seu trabalho não se resume a organizar desfiles ou a criar roupas que combinem com o estilo de cada cliente: ser designer de moda é também uma forma de melhorar o dia-a-dia de algumas minorias da nossa sociedade.

 Mas comecemos pelo início. Nascida na Covilhã, Madalena Sena é filha e neta de industriais ligados à indústria de lanifícios. Tendo inicialmente estudado Artes Gráficas, o seu primeiro emprego seria numa fábrica local como desenhadora de etiquetas. Passado pouco tempo, um dos clientes da empresa propôs-lhe que fosse trabalhar, na mesma área, para Telavive. Pensou bastante sobre a mudança de vida, aceitou a proposta e viveu então aquela que considera uma das experiências mais marcantes da sua carreira profissional: “É interessante viver numa cidade onde nem sequer conseguimos ler as placas - a língua e a cultura são completamente diferentes. Passei a falar em inglês e espanhol e a fazer, in loco, o mesmo trabalho que me encomendavam quando ainda estava a cinco mil quilómetros de distância.”

Seis meses passados, as lusitanas saudades falaram mais alto: Madalena Sena decidiu não renovar o visto e voltar à Covilhã. Actualmente, é técnica superiora na Universidade da Beira Interior, onde os múltiplos projectos para melhorar o mundo através da moda começaram a tomar forma. A primeira ideia surgiu em 2007 quando frequentava o mestrado em Design de Moda e, numa aula prática, a professora pediu aos alunos que criassem um produto que não existisse no mercado. O desafio parecia tão aliciante quanto difícil de concretizar, mas a experiência da maternidade recente deu a Madalena Sena a inspiração necessária para o superar: “Lembrei-me que, nos dias que se seguem ao nascimento do bebé, as mulheres estão cansadas e debilitadas. Apesar disso, passam muito tempo a vestir os filhos e a prepará-los para novas intervenções das enfermeiras, entre banhos, mudanças de fraldas e vacinas. Isso deu-me uma ideia. Pensei que deveria existir um fato completo que substituísse toda a roupa que o bebé tem que vestir, como o body, os collants, a camisola, as botinhas e as calças ou a saia...”

 Assim surgiu o Kokoon First Day Kid – nome que a designer daria ao protótipo de babygrow então criado, com todas as aberturas necessárias, nos braços e pés, para que o bebé não tenha que ser despido de cada vez que leva uma vacina. Esta peça de vestuário dispensa todas as outras, uma vez que é feita em duas camadas de algodão biológico, o que permite um contacto com a pele do recém-nascido, não provoca alergias e é adequado à temperatura média de hospitais, clínicas e centros de saúde (que ronda os 25 graus centígrados). O protótipo já foi testado em dois locais: no Centro Hospitalar da Cova da Beira, na Covilhã, e na Maternidade Bissaya Barreto, em Coimbra. Em ambos, médicos e enfermeiros aprovaram totalmente a inovação, garantindo que o bem-estar da mãe e do bebé seria melhorado.

 A recepção positiva foi gratificante, o que levou Madalena Sena a tentar melhorar o quotidiano de outros grupos sociais. No ano seguinte, quando realizou a sua tese de mestrado, teve como objectivo principal ajudar os invisuais que se preocupam com a aparência: “É um aspecto do qual ninguém se lembra, mas os cegos, tal como nós, gostam de estar bem vestidos e de ter uma boa apresentação em público. A maioria das vezes, nem sequer vão às compras porque não gostam de incomodar ninguém.” A ideia, mais uma vez, surgiria do espírito observador da designer: “Geralmente, nas lojas, existem muitas peças iguais, em cores diferentes. Mas, por vezes, a luz não é a melhor para as reconhecermos e combinarmos com outros artigos que já tenhamos em casa. Isto levou-me a pensar que, caso visse mal ou fosse cega, teria ainda mais dificuldade em me vestir adequadamente.”

 Depois desta constatação, Madalena Sena resolveu criar uma etiqueta em Braille que especifica as cores de cada peça: “Desta forma, uma pessoa cega não precisa de decorar todas as cores das roupas que tem no armário e já não vai combinar dois tons que, à partida, não ficam bem juntos. Se esta etiqueta existisse, eles teriam muito mais autonomia.” A confirmação chega-lhe da parte das próprias associações de cegos com que Madalena Sena foi contactando ao longo do desenvolvimento do projecto: “Todas acharam a ideia muito útil para o dia-a-dia e pediram-me para vender a patente o mais rapidamente possível.”

 Apesar de já terem existido alguns contactos de empresas, a designer aguarda ainda a compra das duas patentes registadas. De momento, para além das óptimas notas obtidas no mestrado, Madalena Sena já foi premiada por dois anos consecutivos no concurso de empreendedorismo organizado pela universidade. De futuro, espera concluir o doutoramento e colocar em prática os milhares de ideias que fervilham na sua cabeça - todas elas a pensar num mundo melhor e muito mais confortável.

Ana Catarina Pereira

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