Danuta Wojciechowska

Arte para os mais pequenos (e não só)

 O seu apelido é difícil de pronunciar, mas o traço é fácil de reconhecer. Danuta Wojciechowska é responsável por algumas das mais interessantes ilustrações de livros infantis publicados em Portugal nos últimos dez anos. Este mês lançou “Um xaile com notas a chorar” – uma obra infanto-juvenil com textos de Gilda Nunes Barata. Numa linguagem poética, o livro revela o significado do fado e a magia da mais típica das canções portuguesas. À Notícias Magazine, Danuta contou como chegou a Portugal e se deixou envolver por toda a fantasia lusitana.

 

 

 Danuta Wojciechowska nasceu no Quebec, Canadá, pelo que seria de esperar um nome mais anglófono. Mas a origem, explica-nos, resulta da combinação de um pai polaco e de uma mãe suíça. E seria precisamente no país da família materna que a ilustradora começaria a realizar os seus sonhos artísticos.

Depois de um período de liceu repleto de aulas de economia, matemática e inglês, Danuta Wojciechowska decidiu fazer as malas e ir para a Suíça estudar Design de Comunicação. Ao contrário de muitos artistas, afirma que a componente teórica e técnica do curso foi importante para o seu trabalho: “Para mim foi muito bom estudar Arte. Eu tinha crescido rodeada de livros ilustrados, porque a minha mãe queria ter sido ilustradora, e para mim aquilo foi o concretizar de um sonho. O curso estava muito bem estruturado, e eu pude praticar ilustração logo desde o início.”

 Terminada a licenciatura fez novamente as malas e viajou para Inglaterra, desta vez para estudar Educação pela Arte: “Eu tinha começado a trabalhar em agências de publicidade quando ainda estava a estudar. A maioria dos meus colegas acabava por seguir esse ramo, porque era uma área com muita saída na Suíça. Mas não era bem aquilo que eu queria…” Danuta Wojciechowska pretendia antes colaborar em áreas sociais e educativas, onde reconhecesse os efeitos performativos da arte: “Eu sempre pensei que, através da educação, as pessoas podem ser agentes de transformação social. E a arte, ligada à educação, é uma maneira de estimular a vontade e motivar as pessoas a agir. A arte estimula-nos a todos os níveis, sobretudo o emotivo.” Apesar disso, e contrariando alguns estereótipos, Danuta Wojciechowska afirma que os artistas não são pessoas particularmente sensíveis. No fundo, considera que a sensibilidade está presente em todos os seres humanos - a diferença é que uns a cultivam mais do que outros.

 Embora apenas se tenha prolongado por um ano, a experiência em Inglaterra ainda hoje se reflecte no seu trabalho, uma vez que desenvolveu técnicas de ensino de várias disciplinas - desde a língua à matemática, passando pelas ciências e pela geografia - através da arte. Conhecimentos que anualmente transporta para os manuais escolares que ilustra ou para os jogos didácticos que cria: “As crianças aprendem muito mais facilmente a tabuada ou algumas regras de gramática se forem auxiliadas por imagens. A nossa memória visual também nos ajuda a melhorar os conhecimentos”, acrescenta a ilustradora.

 Terminada a formação, veio para Portugal com o marido, português, no ano de 1984. Das lembranças daquela época Danuta Wojciechowska retém a imagem de um país muito diferente, quando comparado com os nossos dias: “Não havia tantas lojas e supermercados, e as pessoas não estavam tão viradas para o consumo. No início, a minha adaptação foi um pouco complicada, embora tivesse sido compensada pela natureza! Lembro-me de apreciar os campos, que era uma coisa que eu também tinha no Canadá e na Suíça. Em Portugal, para além disso, ainda tinha a proximidade do mar, o que foi muito bom para mim”, recorda e, sem se dar conta, enumera alguns dos elementos que sempre transportou para os seus livros e que a inspiraram a criar (o ambiente marinho, os vários tipos de plantas e árvores).

 Para além destes motivos, as vivências pelo mundo enriqueceram-na como pessoa, mas também culturalmente, sendo que hoje domina quadro idiomas: francês, inglês, alemão e português. A língua de Camões, sublinha, faz com que, de alguma forma, possa continuar a viajar: “Os escritores africanos que tenho ilustrado fazem-me sentir que a cultura portuguesa é muito rica e que nos permite viajar muito, através do conhecimento. Eu não leio apenas os livros que ilustro, leio muito mais, e vou viajando através da literatura.”

 À chegada a Portugal começou por trabalhar numa área que também a fascinava: a cenografia, construindo cenários para teatro e televisão. Alguns anos mais tarde formou o seu próprio ateliê, o Lupa Design, em Lisboa. As imagens que criava para livros infantis, e que sempre tinham estado presentes na sua vida, passariam a ser uma das suas principais actividades a partir de 1999, quando publicou o primeiro livro. A partir daí não mais parou. Em 2003 recebeu o Prémio Nacional de Ilustração, para o livro O Sonho de Mariana, de António Mota, tendo sido também distinguida com menções especiais do júri nos quatro anos anteriores. Ainda em 2003, foi uma das seleccionadas para a Exposição Internacional de Ilustradores da Feira do Livro Infantil de Bolonha, com itinerância pelos principais museus do Japão, pelas ilustrações do livro Mouschi, o Gato de Anne Frank. No ano seguinte foi a candidata portuguesa ao Prémio Hans Christian Andersen, para além de ter recebido o prémio para o melhor livro ilustrado do FIBDA – Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora. Estas e outras distinções que colecciona fazem parte do seu curriculum, embora Danuta Wojciechowska gostasse que existissem mais oportunidades para os ilustradores nacionais mostrarem o seu trabalho: “É muito difícil viver apenas da ilustração em Portugal. Estes prémios, para além da visibilidade, dão-nos oportunidade de nos concentrarmos e produzirmos mais.”

 Como ilustradora, afirma ter sempre presentes certas preocupações essenciais enquanto desenha: “Não gosto quando os livros para crianças são demasiado infantilizados ou estereotipados. Eu acho que nós devemos olhar para as crianças como seres que também merecem um produto de qualidade. Por isso é que eu gosto de trabalhar com estes escritores, eles também têm essa preocupação com a criança.” E por “estes”, Danuta Wojciechowska refere-se aos escritores que fazem parte do seu portefólio e para quem já ilustrou livros, como Alice Vieira, José Jorge Letria, Álvaro Magalhães, Mia Couto, Ondjaki, Luísa Ducla Soares, Manuel Alegre, entre tantos outros. O último livro ilustrado chegou há pouco tempo às livrarias e é da autoria de Lídia Jorge: O Romance do Grande Gatão conta a história de um gato irreverente, listado, dividido entre o afecto de duas famílias muito distintas e a busca da felicidade. É uma história de aventuras passada em noites de luar, de lutas até ao amanhecer e de feridas curadas pela amizade das crianças, todas elas descritas com a linguagem poética da escritora e com as imaginativas ilustrações de Danuta. O triunfo da tolerância entre as pessoas é a mensagem transmitida aos mais pequenos (ou aos adultos) que lerem este livro.

 Mas a lista de cuidados especiais que a ilustradora tem presentes enquanto cria não termina aqui. Na sua opinião, é importante que os livros infantis tenham uma característica muito especial: “Eu desenho livros para crianças, eles são o meu público. Mas eu não gosto que o livro seja ‘só’ para crianças. Eu penso que a criança tem que poder crescer com os livros.” Neste aspecto, notam-se as suas preocupações de professora e de mãe. Por esta mesma razão, sublinha: “Eu gosto de livros que possam ser lidos por crianças, mas também pelos pais. Na minha infância, eu cresci com alguns livros ilustrados, que ainda hoje me continuam a fascinar. Isso é que é importante numa obra - que ela acompanhe a vida de uma pessoa. É óbvio que, quando somos crianças, vemos o livro de uma maneira, e quando somos adultos fazemos outras leituras. Mas o importante é que a história cresça connosco.” Um livro deverá assim, segundo a ilustradora, incentivar o desenvolvimento, com doses equilibradas de ternura e sabedoria: “Por vezes dizem-me para eu não colocar preto nas imagens. É óbvio que eu não vou pintar o livro todo de preto, mas também posso colocar um bocadinho. Caso contrário, a criança não tem contacto com o real.”

 Para além da ilustração e do trabalho no ateliê, Danuta Wojciechowska ocupa os seus dias organizando workshops e exposições em torno do seu trabalho de ilustração. Participa em cursos de formação e conferências para professores e dinamiza ateliês criativos com crianças e jovens. Também aqui, como à natureza, a ilustradora vai buscar muita da sua inspiração para continuar a desenhar: “As crianças ensinam-nos muita coisa. Para mim, é muito importante contactar com eles.” São influências que se notam em cada traço, ou vivências que marcam uma personalidade artística.

Ana Catarina Pereira

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