Empreendedorismo social

A solução para a crise que vivemos?

 

 “Empreendedorismo social”é ainda um conceito estranho e distante das realidades de muitos portugueses. Mas, para Catarina Soares, ele faz parte do dia-a-dia como presidente de uma organização que o ostenta orgulhosamente e que faz questão de o divulgar em vários pontos do país. Até porque, consideram, as boas acções podem ser contagiantes.

 Criado há um ano e meio, o Instituto de Empreendedorismo Social (IES) já desenvolveu várias actividades com repercussão prática na vida de muitas pessoas. Reúne empresas, instituições e cidadãos individuais, com o firme propósito de melhorarem a sociedade onde vivem.

 

 Catarina Soares tem 34 anos. Licenciou-se em Economia pela Universidade Nova de Lisboa e frequentou um MBA simultaneamente leccionado em França e Singapura. O gosto pelas viagens e pelo conhecimento de novas culturas ditou-lhe desde cedo uma carreira internacional: trabalhou durante alguns anos nos EUA e na Holanda e fez voluntariado no Brasil. Agora prepara-se para abraçar novos desafios em Angola, mantendo sempre um objectivo em mente: colocar a economia ao serviço de causas sociais.

 

Notícias Magazine: O conceito de empreendedorismo social, em Portugal, é muito recente. Como começou a ter contacto com ele?

Catarina Soares: Em 2004, quando ainda trabalhava nos EUA. Foi por essa altura em que comecei a sentir falta de qualquer coisa… Aquela máxima que me tentavam passar, segundo a qual a única missão dos economistas é maximizar o valor do accionista, não fazia grande sentido. Fazia-me confusão que esse fosse o meu contributo principal. Então, comecei a ler algumas coisas e a tomar conhecimento das instituições que já existiam e que trabalhavam nesta área.

Nessa altura, decidi regressar a Portugal, até porque a empresa onde eu trabalhava tinha sido vendida a outro grupo e eu deixei de me identificar com os valores e objectivos deles. Voltei e pensei em mudar um pouco o meu rumo profissional. Foi nessa altura que um head-hunter me contactou para integrar uma empresa na área da saúde, o que me pareceu o caminho natural para a área social. Aceitei e trabalhei durante algum tempo nessa empresa, mas saí porque precisava de uma experiência mais radical.

Em seguida fui para uma organização americana sem fins lucrativos, que “casava” as duas áreas que me fascinam: as ferramentas de gestão para resolver problemas sociais. A organização chama-se Netimpact: já então era muito forte nos EUA e estava a querer implantar-se na Europa. Eles trabalham essencialmente com alunos que frequentam os MBAs, porque são pessoas que já têm alguma experiência profissional e que se questionam sobre uma série de coisas. É uma altura boa para entrar na cabeça destas pessoas e pô-las a pensar sobre outras coisas que podem fazer. Eu juntei-me a eles e fui directora europeia da Netimpact. Foi aí que conheci mais detalhadamente algumas organizações e temas como o empreendedorismo social.

NM: E o que é o empreededorismo social?

CS: Empreendedores, num sentido geral, são pessoas que assumem riscos e que descobrem oportunidades. Nesse sentido, o significado é o mesmo. A diferença é que os empreendedores sociais são pessoas que vêem problemas sociais e que os querem resolver. Não aceitam um “não” como resposta. São pessoas muito persistentes que conseguem, com poucos recursos, chegar a soluções sustentáveis que depois podem ser replicadas noutras situações semelhantes. Para além disso, não perdem dinheiro e geram as suas próprias receitas. Não têm necessariamente que ter lucro, embora alguns tenham. Eu e os meus colegas estamos convencidos que o empreendedorismo social é uma das soluções para a crise económica e social que vivemos. É cada vez mais evidente que o Estado não é, nem pode ser, resposta para tudo. Portanto, cabe aos indivíduos tomar as rédeas daquilo que são os problemas da sociedade, e isso está a acontecer.

NM: Quem são os empreendedores sociais que as pessoas reconhecem mais facilmente?

CS: Grameen Beck (…) e Muhamad Yunus (…). Esses são dois bons exemplos, popularizados a uma escala internacional.

NM: Em Portugal, que exemplos destaca de empreendedorismo social?

CS: Em Portugal existe, por exemplo, a Bolsa de Valores Sociais, que é a primeira da Europa. Há também um projecto com quem nós trabalhámos, que são os Orquestra Geração, que começou na Venezuela nos anos 70 e que entrou em Portugal pela mão das fundações Calouste Gulbenkian e EDP e com o apoio inicial da Câmara Municipal da Amadora. É um projecto que está a criar orquestras clássicas nas escolas de comunidades desfavorecidas, com um profissionalismo e uma qualidade enormes. Este aspecto é importante: as pessoas têm que perceber que o empreendedorismo social não é caridade ou um favor que se presta. Em Portugal, há projectos muito bons e está a acontecer muita coisa.

 

NM: Isso dá-lhe uma certa esperança no futuro?

 

CS: Eu tenho muita esperança no futuro. Sou relativamente optimista em relação às pessoas em geral, embora não utópica. Sei que há pessoas e projectos muito bons. Nem tudo está a piorar na nossa sociedade.

 

NM: Quando é que este conceito começou a ser utilizado em Portugal?

 

CS: Este conceito começou a ser falado nos EUA, como social entrepreunership, nos anos 70. Em Portugal começou a ser falado no primeiro congresso sobre esta temática, em Cascais, em 2007. Já existiam pessoas com essas características mas não se identificavam a si próprias com o conceito. Se lhes falássemos de empreendedores sociais nem sequer reconheciam que também era aquilo que eles próprios faziam.

 

NM: Foi por essa razão que criaram o IES?

 

CS: Sim, foi então que criámos o IES, em parceria com a Câmara Municipal de Cascais e o ICAD – a escola em que frequentei o MBA e que tem um departamento de empreendedorismo social. Estas duas organizações aperceberam-se que era necessário dinamizar estratégias deste tipo em Portugal.

 

NM: Na prática, quais são as vossas principais actividades?

 

CS: O IES tem vários pilares, um dos quais é identificar iniciativas de empreendedorismo social em Portugal.

 

NM: Como é que fazem essa identificação?

 

CS: Seguimos uma metodologia de investigação académica que se chama ES+, que já foi reconhecida internacionalmente. Poderia ser aplicada a nível nacional, mas nós trabalhamos sobretudo com câmaras municipais. Vamos entrevistando pessoas, instituições e utentes, aos quais nós chamamos “observadores privilegiados”. A partir dessas entrevistas vamos fazendo uma lista daquilo que as pessoas consideram que podem ser iniciativas de empreendedorismo social na sua região, até um ponto em que se começam todos a repetir e já não aparecem novos.

Depois, na fase seguinte, começamos a entrevistar as pessoas e iniciativas que nos foram sendo mencionadas. Normalmente, a maioria não são de empreendedorismo social e tratam-se antes de organizações mais clássicas. Em Cascais, que foi o primeiro concelho em que trabalhámos, tínhamos 140 iniciativas na lista inicial e terminámos com cinco.

 

NM: Chegados a essa selecção, o que é que fazem por essas pessoas ou instituições?

 

CS: O IES ajuda estas iniciativas a atingir o seu potencial máximo: ajuda-as a crescer melhor e mais depressa. Isto pode ser feito através de programas, acções de formação ou em parcerias com os nossos associados. De qualquer forma, estes empreendedores sociais, quer pertençam a empresas ou a organizações sem fins lucrativos, são sempre pessoas que têm esse espírito de iniciativa própria. Coincidência, ou não, os cinco empreendedores escolhidos em Cascais são mulheres e são pessoas que começaram a trabalhar dentro da sua comunidade. Perceberam que existia ali um determinado problema e decidiram tentar resolvê-lo. Tiveram uma boa ideia e rodearam-se de pessoas que as ajudaram a fazer com que esta funcionasse, com muito poucos recursos.

 

NM: Quais são esses cinco projectos apoiados em Cascais?

 

CS: São todos muito diferentes, embora tenham a inovação e a sustentabilidade em comum. (…)

 

NM: E no resto do país, que tipo de iniciativas apoiam?

 

CS: A isso ainda não posso responder, uma vez que ainda só estão fechados e tornados públicos os resultados de Cascais. Mas estamos também a trabalhar com o distrito de Vila Real, e está a correr muito bem.

 

NM: As pessoas que trabalham no IES são voluntárias ou remuneradas?

 

CS: Nós temos muitos voluntários. Nem poderia ser de outra maneira, com uma carga de trabalho tão grande. Um aspecto engraçado é que começa a haver cada vez mais interesse por parte dos estudantes universitários. É gratificante ver isso, porque as pessoas dedicam-se verdadeiramente ao que lhes é proposto. Mas também temos uma equipa remunerada a trabalhar em todos estes projectos.

 

NM: O financiamento para esses custos vem de onde?

 

CS: O IES tem várias fontes de receita: as quotas dos seus associados e a prestação de serviços a empresas e a fundações que precisam de algum apoio a este nível. Por outro lado, também temos projectos de investigação, como o ES+, que são apoiados pelas universidades, pelas câmaras ou por fundações.

 

NM: Quem são os associados do IES?

 

CS: Temos associados individuais e colectivos. Nunca foi objectivo do IES ter muitos associados, precisamente porque temos uma ligação muito forte com eles. Não existe aquela “coisa da filantropia” - pagar uma quota e ajudar no financiamento. Isso não faz sentido. Para nós, o que é importante é fazer parcerias, nas quais existe o pagamento de uma quota, mas em que também são desenvolvidos programas adaptados a essa organização ou empresa. Nós só aceitamos associados durante, um mínimo, de quatro anos. A quota é paga de quatro em quatro anos, precisamente para “obrigar” a essa relação. Temos associados Premium, que se encontram ainda mais empenhados em seguir o nosso caminho: são a Fundação EDP, o Banco Santander/Totta e o Grupo Águas de Portugal. Os outros associados são a empresa de consultores Ideiateca, os Abreu advogados, a associação portuguesa de antigos alunos do ICAD e a Fundação BMW, na Alemanha.

 

NM: Os vossos associadas têm benefícios fiscais por se envolverem neste tipo de projectos?

 

CS: Por enquanto, isso não é uma prioridade. Mas também nunca nos pediram isso. Nós só fomos formalmente constituídos em Dezembro de 2008, já fizemos muita coisa, mas ainda não trabalhámos nesse sentido. Ainda não sentimos essa necessidade, nem por parte dos associados individuais nem dos colectivos.

 

NM: Se uma empresa quiser tornar-se socialmente empreendedora, quais são os passos que tem de dar para trabalhar convosco?

 

CS: Eu costumo dizer que a grande mais-valia para as empresas em se tornarem empreendedoras sociais é a motivação dos trabalhadores quando desenvolvem, por exemplo, programas de voluntariado. Nós trabalhamos neste sentido de fazer uma ponte entre as empresas e as organizações que têm necessidades específicas, e que nós consideramos meritórias. São mundos diferentes que se encontram e que têm muito a aprender um com o outro.

 

NM: Quais são as áreas sociais mais urgentes a trabalhar em Portugal?

 

CS: O apoio aos idosos, iniciativas que visem aumentar a empregabilidade ou resolver situações da denominada “nova pobreza”. São tantas questões…

 

 

Ana Catarina Pereira

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