O medo que poderá salvar os portugueses

 

O medo é um instinto natural e fundamental para a sobrevivência tanto de seres humanos como de animais. Na dose certa, pode salvar vidas, mudar comportamentos e ter uma função protectora. Mas se o pessimismo é um vírus que se dissemina com facilidade entre os portugueses, será que o medo os pode ajudar a superar a crise?

 

Em Portugal, os últimos meses foram sinónimo de subidas das taxas de juro, cortes nos salários da função pública e medidas de contenção orçamental. A demissão do primeiro-ministro José Sócrates, seguida de um pedido de ajuda internacional, consolidou (e em alguns casos terá aumentado) a apreensão sentida. Nas ruas, no emprego, em casa ou nos cafés, o tema de conversa é invariavelmente o mesmo: o que irá implicar esta ajuda externa? Que restrições serão exigidas para controlar a crise económica? O desemprego irá aumentar? Para Ana Nava, psiquiatra e grupanalista, apesar do evidente mal-estar instalado, a situação pode reverter-se a favor dos portugueses: “Este medo que se tem vindo a sentir pode ser um factor de mudança. E actualmente, se há um ponto em que todos estamos de acordo, é que Portugal necessita de uma grande mudança.”

A teoria não é recente. Já no século XIX, o filósofo dinamarquês Søren Kierkegaard tinha afirmado: “O medo não é apenas limitador. Ele contém as infinitas possibilidades da sabedoria que são o motor do desenvolvimento humano”. Quase 200 anos depois, a mensagem é novamente citada por médicos, neurologistas e psicólogos. O medo volta assim a ser encarado como um factor positivo num início de século que já assistiu a sangrentos atentados terroristas, a violentas destruições provocadas por furacões e acidentes naturais e ao aprofundamento de uma grave crise económica.

 

Para Ana Nava há muito que a situação económica e social do país se tornou insustentável: “Parece-me que, nos últimos séculos, temos vivido num marasmo que se tem revelado pouco produtivo. Devíamos aproveitar este furacão que criou brechas no nosso conforto para realizarmos uma mudança produtiva”, sugere a especialista. Sem adoptar uma perspectiva optimista, a directora da Clínica Tágide, em Lisboa, afirma estar consciente de que muitos portugueses irão sofrer perdas, e não somente a nível económico. Apesar disso, considera ser possível que estas perdas gerem estratégias e atitudes positivas que conduzam ao “verdadeiro progresso”. Na sua opinião, este deveria começar a realizar-se longe das dependências de financiamentos públicos ou de subsídios europeus: “É altura de crescermos, sermos adultos e desenvolvermos as nossas capacidades, de modo a podermos ser autónomos.”

Dias de incerteza e apreensão

Rita Santos Silva, engenheira civil, grávida de quase nove meses, não tem problemas em assumir: “Estou triste por a minha filha nascer em tempos tão complicados, e receio que ela venha a sofrer as consequências desta crise.” Apesar de terem ambos uma situação profissional relativamente estável, tanto Rita como o marido temem possíveis mudanças de cenário. É por essa razão que mantêm os hábitos de poupança a que, desde cedo, afirmam ter sido habituados. Na sua opinião, a frequência com que o tema é noticiado pelos meios de comunicação social tem um papel de alerta importante: “Hoje em dia é impossível que as pessoas se mantenham alheadas deste problema. É verdade que isso pode agravar o pessimismo nacional, mas também é preciso estarmos conscientes, mantendo a confiança no futuro.” Para Rita Santos Silva, esta é a melhor forma de encarar os desafios que se aproximam: “Em 33 anos de vida, não me lembro de tempos tão austeros, mas o pessimismo não resolve os problemas - apenas os agrava.”

 

Também para Paulo Cunha, investigador em ciências sociais, natural de Guimarães, é importante que as circunstâncias e desenvolvimentos da crise económica sejam noticiados e debatidos. Ainda assim, considera que a exaustão não será o melhor remédio para curar os hábitos consumistas dos portugueses: “Acho que falar da crise de uma forma que, por vezes, chega a ser obsessiva, apenas contribuirá para deprimir as pessoas e torná-las mais pessimistas. Temos de ser realistas! O importante é pensar no presente, encarar a vida com uma atitude positiva e tentar ser criativo para superar as dificuldades.”

 

Para Paulo Cunha, o agravamento da crise económica não se tem traduzido em grandes mudanças no seu quotidiano. À Focus revela ter o mesmo telemóvel há cinco anos, viajar sobretudo por questões profissionais, e comprar apenas aquilo de que necessita: “É claro que tenho alguns luxos, como coleccionar livros, por exemplo, mas nunca me considerei um consumista. Com a chegada da crise, mantive esta postura, tentando poupar algum dinheiro para quaisquer eventualidades futuras.” Apesar de não manifestar uma visão catastrofista da realidade, o investigador encara os tempos que se avizinham com apreensão: “Acho que (quase) todos teremos de nos privar de algum conforto e das comodidades conquistadas nas últimas décadas… Isso preocupa-me porque sei que as pessoas vão viver com menos qualidade de vida e ser mais infelizes!”

Os mecanismos psíquicos que desencadeiam o medo

Do ponto de vista anatomo-fisiológico, o ser humano é dotado de um sistema neuro-vegetativo que o protege em caso de perigo – uma espécie de “kit de sobrevivência” a que a ciência deu o nome de sistema nervoso simpático. Segundo Ana Nava, este sistema comanda todos os órgãos e prepara o ser humano para reagir de duas formas possíveis em caso de perigo: ataque ou fuga. Por sua vez, este sistema inato, físico e emocional, é também auxiliado por uma série de mecanismos cognitivos que vão sendo melhorados com o passar dos anos e o acumular de experiências. Na opinião da especialista, “a vida ensina-nos que há uma série de situações das quais devemos ter medo. Mas também nos diz que é prudente e sensato desenvolver estratégias defensivas.”

Em termos práticos, a psiquiatra cita como exemplo o caso de pessoas que, por recearem perder o emprego, tomam providências antecipadas, como diminuir as despesas familiares ou procurar um novo local de trabalho: “A inteligência humana aperfeiçoou muito os processos de lidar com situações perigosas e a própria forma de reagirmos ao medo, com respostas mais elaboradas e não necessariamente imediatas. Viver em sociedade traz uma série de novas situações que só as perícias humanas têm a delicadeza de contornar e resolver”, adianta a especialista. Psiquicamente, as formas de encarar a crise são assim diversas e dependentes da personalidade de cada um. Que o diga Dennis Ferreira, 27 anos e desempregado há seis meses. Cruzar os braços, entrar em pânico ou ceder ao mal-estar nacional não parecem combinar com a sua postura: “Eu não faço parte da geração à rasca. Eu sou da geração que se desenrasca!” Filho de pais emigrantes, já decidiu que, caso a sua espera se prolongue por muito mais tempo, irá procurar emprego no estrangeiro: “Os meus pais fizeram-no, e eu não vejo qualquer problema em voltar a fazê-lo.”

Na sua opinião, o cenário que actualmente preocupa tantos portugueses não é novo: “Eu não tenho medo da crise. A história não mente, e a verdade é que Portugal sempre sofreu grandes dificuldades financeiras. Sempre dependemos da ajuda externa, com financiamentos reembolsáveis, como o FMI, os empréstimos bancários ou os subsídios atribuídos pela União Europeia.” Para Dennis Ferreira, o efeito causado é o de uma bola de neve: “As pessoas têm razões para estarem preocupadas. No entanto, como bons portugueses que somos, temos tendência para exagerar. Acho que o medo é inimigo da crise. Com medo, não jantamos fora, não viajamos, não vamos às compras e nem sequer ligamos aos saldos ou às promoções… Tudo isto vai afectar uma espinha dorsal dos serviços e comércio portugueses de uma maneira que muito dificilmente poderá ser reversível.”

Cientificamente, o pessimismo lusitano de que fala Dennis Ferreira poderá estar associado a certos medos não traumáticos de que muitos seres humanos são vítimas. São os casos daqueles que sofrem de vertigens sem nunca terem caído de um edifício alto, ou dos que têm medo de andar de avião sem nunca terem sido transportados desta forma. Para Ana Nava, apesar do tipo de medo até aqui mencionado ser adaptativo e saudável, a doença também pode afectar o sistema biológico: “Na verdade, os distúrbios de ansiedade, pânico e fobia são a patologia do medo. Em linguagem psicanalítica, este é um medo sem objecto. Numa linguagem mais vulgar, digamos que existe um medo desadequado e exagerado relativamente à situação causal.” Nestes casos, a resposta do paciente não o ajuda, trazendo-lhe antes mais complicações e problemas.

Um monstro invisível

Já para Catarina Moura, professora universitária de 33 anos, o principal factor que tem despoletado o seu receio relativamente à crise económica é precisamente a incógnita relativa aos próximos dias, meses ou anos: “Incomoda-me não compreender a crise em termos absolutos, e sentir que o conjunto de factores que a determinam nos escapa e transcende. Claro que me preocupam as perspectivas do que possa vir a passar-se nos próximos meses, mas o meu receio, a que não posso sequer chamar medo, é ainda um sentimento abstracto, ao qual não consigo dar forma.”

Na opinião de Catarina Moura, o dia-a-dia da maioria dos portugueses ainda não foi sequer afectado pela crise económica. Recuando no tempo, recorda o ano de 1995 em que entrou para a faculdade e afirma ter sido “bombardeada” com o discurso constante de um mercado saturado e em crise: “A sensação que tenho é que a minha geração se fez adulta dentro deste espírito da dificuldade em encontrar emprego na sua área de formação, dos baixos salários, dos recibos verdes, da precariedade. No entanto, hoje em dia vejo o meu irmão (que tem 26 anos) e a geração que se licenciou com ele, a enfrentarem dificuldades muito mais acentuadas para encontrar um primeiro emprego, seja ele em que domínio for. Talvez seja esta a geração que, verdadeiramente, vai viver a crise que já antecipávamos há 15 anos.” Ainda assim, independentemente do grupo de jovens que tenha enfrentado maiores dificuldades, a professora da Universidade da Beira Interior considera que, dos 20 aos 40, existe um imenso número de portugueses desencantados com o seu país - “pela constante sensação de falta de oportunidades, de atrofio e de necessidade de procurar noutro lado o que aqui parece nunca mais chegar.”

 

Também para Madalena Sena, designer e mãe de dois filhos, as incertezas e o desconhecimento dos reais efeitos da crise são o motivo de maior preocupação. De uma vez por todas, gostaria que os governantes explicassem ao país que cortes orçamentais irão ser realizados, quem irá ser despedido da função pública e que outras medidas de austeridade terão que ser aplicadas. “Este medo da crise provoca-me uma enorme ansiedade e tem-me obrigado a alterar todo o meu quotidiano. O que antes podia ser planeado a médio ou longo prazo, como as férias, os projectos de vida, as compras, é agora vivido diariamente e planeado a curtíssimo prazo”, afirma. Como funcionária pública teme que os cortes salariais venham, brevemente, a traduzir-se em despedimentos: “Esse é o meu maior receio pois o meu vencimento é a única fonte de rendimento do meu núcleo familiar. A perda de emprego, ou mesmo um corte severo no rendimento mensal, seria desastroso.”

 

A partir do momento em que se começou a sentir desta forma, resolveu, como tantos portugueses, traçar um plano familiar de contenção de despesas. Para tal, deixou de ir ao supermercado com o estômago vazio ou na companhia dos filhos, já que tanto uma situação como a outra a levavam a fazer compras desnecessárias. Para além disso, está atenta a todas as promoções e dá preferência aos produtos de marcas brancas: “Tudo sofreu cortes lá em casa, do vestuário à alimentação. Bom seria que, com essas medidas individuais, a crise pudesse ser enfrentada de melhor forma. Mas infelizmente os factores externos onde não podemos intervir, como a inflação e a subida de impostos, fazem parecer todos os nossos esforços em vão.”

As gerações que se seguem

E se para muitos portugueses a crise se traduz em cortes nas despesas do dia de hoje, para Cláudio Ferreira os meses e anos que se irão seguir são ainda mais preocupantes. Como pai de família, teme sobretudo pelo futuro do filho de três anos, e como professor lamenta não poder transmitir uma visão mais optimista aos seus alunos: “Não sei o que futuro lhes reserva. Aliás, julgo saber vagamente e não me parece nada risonho.” A juntar a esta visão, a descrença na classe política que tem vindo a aprofundar nos últimos anos só tem contribuído para o aumento do seu desespero.

 

Sublinhando que a sua situação profissional já foi fortemente afectada pelos cortes salariais da função pública, Cláudio Ferreira afirma que o seu maior medo é o de vir a enfrentar uma sala de aula vazia: “O número de alunos que abandonam a escola por problemas financeiros das famílias tem vindo a aumentar, e eu já vi isso acontecer nas minhas turmas. Se não há alunos, também não são necessários professores. Quantas vezes oiço, nos corredores, os alunos perguntarem-se ‘Para quê estudar? Para ir para o desemprego?’.” Para o professor do Instituto Politécnico do Cávado e do Ave, falar com os alunos sobre este tema tornou-se assim uma obrigatoriedade moral e ética. O objectivo não será, afirma, perpetuar o pessimismo, embora esteja a chegar a uma fase em que desconhece a resposta certa: “Muitos alunos perguntam-me se a solução é emigrarem depois do curso. Mas como é que eu posso, enquanto educador e cidadão preocupado, dizer a um aluno brilhante para pôr o seu conhecimento e trabalho a favor de outra economia que não seja a nossa? Não posso fazer isso. Não quero fazer isso! Recuso-me terminantemente a patrocinar a fuga dos nossos cérebros para o estrangeiro. Mas então, que lhes digo eu?” Perguntas que ficam sem resposta, mas que vão subindo de tom enquanto aguardam, cada vez mais ansiosamente, por um desfecho. Para já, resta esperar que os cientistas estejam correctos e que este medo possa gerar novos comportamentos e atitudes.

Ana Catarina Pereira

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