Sonhos à escala mundial

Curiosidade, receio, entusiasmo e um frio na barriga antes de embarcar. São várias as sensações que estas mulheres experimentaram, depois de tomarem a decisão das suas vidas: sair de Portugal e trabalhar no estrangeiro.

 

Setembro é um mês de reinícios. O fim das férias marca o regresso às aulas, ao trabalho e à rotina do dia-a-dia. Mas Setembro pode ser também um mês de decisões e de estabelecimento de prioridades, sobretudo para as mulheres que continuam a ter um emprego que não corresponde às suas expectativas. Se é empreendedora e gosta de desafios novos, já pensou que os seus sonhos podem não passar por Portugal?

Na sociedade global em que vivemos, os nossos projectos e objectivos podem também ter esta dimensão. Invista em si própria e siga uma carreira internacional. A Happy dá-lhe a conhecer os casos de outras mulheres que tiveram coragem para dar este salto. Siga as nossas coordenadas e voe mais alto: a sua realização profissional só depende de si.

 

Oportunidade única

Virgínia Vaz tem 30 anos e é licenciada em Turismo. Quando terminou o curso decidiu investir mais na sua formação, inscrevendo-se no Master da mesma área na Universidade de Brighton. O projecto de viver um ano em Inglaterra, prolongou-se por mais dois, nos quais trabalhou em hotéis britânicos.

Quando regressou a Portugal, o reconhecimento profissional a que estava habituada diminuiu, bem como o número de possibilidades de emprego. Durante três anos geriu um bar em Bragança, experiência à qual se entregou de corpo e alma. Conheço a Virgínia há alguns anos e sei que gostava daquilo que fazia. Mas também sempre soube que esta seria uma situação temporária e que, mais cedo ou mais tarde, iria querer voar mais alto.

Um dia, por curiosidade, inscreveu o seu curriculum num site de emprego espanhol. Na mesma semana foi contactada por uma agência de viagens madrilena, com uma proposta irrecusável. Aconteceu tudo de repente e Virgínia não teve muito tempo para pensar, mas o primeiro impacto não podia ter sido mais positivo: «Os primeiros meses foram muito intensos. Não posso dizer que tenham sido stressantes mas sim muito preenchidos. Todos os dias recebia informação nova, conhecia caras novas e enfrentava pequenos desafios.»

Feliz e realizada, Virgínia também passou por algumas dificuldades, que conseguiu superar com distinção: «Todos os dias são uma pequena batalha quando trabalhamos no estrangeiro», avisa. As burocracias com a segurança social, a abertura de conta no banco ou o aluguer de casa nem sempre são facilitados a estrangeiros: «No entanto, tudo pareceu decorrer com muita leveza. Tudo pareceu encaixar correctamente. Primeiro o emprego, depois a casa, as pessoas que fui conhecendo… parece que tudo ajudava um bocadinho a que o meu dia a dia fosse mais rico».

Apesar de ter sacrificado alguns aspectos da vida pessoal, como o contacto com os familiares mais próximos, Virgínia também foi criando novas amizades. Actualmente, os seus amigos estão espalhados pelo mundo inteiro e sempre que viaja aproveita para reencontrar alguns deles: «As distâncias hoje não são tão grandes. Os emigrantes do século XXI não sofrem o mesmo isolamento dos de outras épocas».

 

No outro lado do mundo

Se Espanha é mesmo aqui ao lado, o mesmo não pode dizer-se do Oriente. Dez mil quilómetros separam Lisboa de Pequim, mas nem mesmo estes fizeram Sofia David recusar uma proposta de trabalho na China. A sua aventura também teve etapas distintas, mas ambas planeadas com tempo… e muito entusiasmo!

Sofia tem 28 anos e é arquitecta. Durante os anos de faculdade, foi mantendo algum contacto com profissionais da sua área, a trabalhar em Portugal, mas nem sempre gostava daquilo que ouvia: «Eram demasiadas histórias com dias de inúmeras fotocópias, filas de pagamentos e legendas de desenhos. Esforcei-me pelo curso que queria e não me conformei que este não fosse valorizado. As outras histórias, as dos que se tinham aventurado “lá fora”, eram mais entusiasmantes e atractivas».

No final da licenciatura, decidiu não esperar mais. Trabalhar no estrangeiro já era um projecto pessoal antigo e aquele era o momento certo. Candidatou-se a um estágio na Holanda (país com importantes referências em arquitectura) e foi seleccionada.

«Os primeiros meses foram essencialmente divertidos», relembra. Apesar disso, as saudades também faziam parte dos seus dias, ou não fosse este o sentimento mais português de todos. A hipótese de desistir passou-lhe pela cabeça, mas em muito poucos momentos: «Posso tê-lo pensado como desabafo, mas não o faria. Não me proporia seguir certos projectos se não estivesse segura de que seriam para completar. Prefiro chamar-lhe persistência e não teimosia».

O reconhecimento profissional foi a maior recompensa que Sofia obteve: após dois anos de trabalho intensivo na Holanda, a empresa convidou-a para integrar um projecto de arquitectura na China. Hoje em dia passa grande parte do seu tempo no Oriente e nem as diferenças culturais a assustam: «Claro que o entusiasmo pela novidade é, por vezes, assaltado pela vontade de ir ao café da esquina com os amigos de há muitos anos… O que mais me custa é a distância dos lugares comuns.» Apesar disso, considera não ter feito sacrifícios, mas antes opções: «Tive que abdicar de algumas coisas para poder ter outras que considerei prioritárias. Estabelecer hierarquias é o mais difícil.»

Aventura e Romantismo

Mariana Abreu tem 29 anos e é actualmente Costumer Service Representative numa multinacional americana, em Amesterdão. Natural de Lisboa e licenciada em História de Arte, trabalhou durante três anos no serviço educativo de um museu da capital. As condições precárias de emprego em Portugal, associadas a uma grande vontade de viajar e conhecer novas realidades, fizeram-na partir.

 

Mas Mariana preferiu não enfrentar sozinha os novos desafios. O seu projecto foi pessoal, profissional e… muito romântico: «Foi uma decisão tomada por mim e pelo meu namorado numa altura da vida em que pensámos “agora ou nunca”. Conhecemos muitas pessoas que sempre acalentaram o sonho, mas depois, por diversas razões, foram-se deixando ficar e hoje arrependem-se de não terem saído do país».

Como não quiseram cometer o mesmo erro, partiram juntos, completamente às escuras: sem emprego, sem casa e sem grandes perspectivas. «O primeiro impacto foi difícil e a primeira semana parece ter durado anos», relembra. Ao fim de um mês, o namorado de Mariana conseguiu emprego, o que lhes assegurou a estadia. Mas a espera de Mariana foi maior: só ao fim de quatro meses, enviando uma média de dez curriculuns por dia, conseguiu trabalho. Valeu a pena, assegura: «Quando a oportunidade surgiu compensou largamente o período de espera a todos os níveis. Se fosse preciso passava pelo mesmo outra vez!»

 

Estarem um com o outro deu-lhes uma segurança maior. Os momentos menos bons de um foram sempre compensados pelo optimismo e persistência do outro: «Só agora tenho a noção que aos olhos das outras pessoas estávamos a ser demasiado optimistas, mas não nos passava pela cabeça desistir. De qualquer modo, quando nos fomos registar no Consulado Português houve um senhor que está cá na Holanda há mais de 30 anos que nos deu um conselho que levamos muito a sério: ter sempre guardado dinheiro suficiente para uma viagem de regresso. Nunca se sabe...»

 

Para Mariana, trabalhar num ambiente internacional tem inúmeras vantagens, entre elas conhecer gente de países e culturas diferentes e aprender outros idiomas, «num local onde não existem “cunhas”, onde cada um vale pelo seu CV e nada mais».

 

Trabalhar numa área em que não tem formação, como Costumer Service Representative, com clientes portugueses, espanhóis, gregos e turcos é um desafio constante para Mariana. O ritmo de trabalho e a recompensa financeira, afirma, não têm comparação possível com a situação portuguesa.

O regresso a Portugal é ponderado, mas sem pressa. Feliz com a sua decisão, Mariana sente falta da família, dos amigos e dos momentos importantes em que não pode estar com eles.

A opinião da especialista

Paula Carneiro é Directora de Recursos Humanos da Microsoft e membro da APG (Associação Portuguesa dos Gestores e Técnicos de Recursos Humanos). Aos 40 anos, não é apenas na teoria que defende as vantagens de uma carreira com dimensão internacional. Paula Carneiro estudou um ano em França, pelo programa de mobilidade ERASMUS, e trabalhou três anos numa empresa multinacional em Inglaterra.

 

«Quando se tem oportunidade de viver uma experiência como esta, o balanço é quase sempre muito positivo» defende a especialista. «O sentimento de realização, a aquisição de conhecimentos a vários níveis e o desenvolvimento pessoal são extraordinários e muito compensadores a curto e a longo prazo. Sem dúvida uma experiência a não perder!», sublinha, em jeito de concelho.

 

Na sua opinião, quem pretenda trabalhar no estrangeiro deve possuir certas características, como «espírito aberto e muita curiosidade intelectual, disponibilidade para alguns sacrifícios a nível pessoal e vontade de abraçar o desafio e a aventura.»

 

Para a gestora de recursos humanos, a preparação e disponibilidade para iniciar uma carreira internacional deve ser sobretudo pessoal, mais ainda do que profissional. Apesar do valor intrínseco do currículo académico ser uma mais-valia considerável, as entidades empregadoras procuram pessoas com grandes competências de relacionamento interpessoal, que se sintam confortáveis em ambientes multiculturais.

O alargamento da União Europeia, a anulação de fronteiras e o próprio desenvolvimento das tecnologias são portas abertas para uma carreira de dimensão internacional. Na era das empresas multinacionais, com sucursais na China, no Dubai e na Argentina, trabalhar no estrangeiro é cada vez mais comum. Nada é definitivo: partir hoje não implica a anulação de um regresso. Concentre-se em estar segura da sua decisão e viva um dia de cada vez.

Caixa: Dicas para partir à aventura:

- Esteja aberta à mudança e não deixe que as diferenças culturais a choquem, informe-se sobre o país para onde vai trabalhar e aprenda o seu idioma o mais rapidamente possível;

- Esqueça preconceitos e prepare-se para conhecer pessoas muito diferentes de si;

- Conheça os habitantes locais e deixe de pensar como portuguesa: «Em Roma sê romano»;

- Aceite um tipo de trabalho que não esteja directamente relacionada com a sua formação - adapta-se às necessidades do mercado e não espere o inverso;

- Não deixe que família e amigos a convençam a desistir: vai arrepender-se mais tarde.

Coordenadas: A Internet a seu favor:

- Visite o site da Comissão Europeia: http://ec.europa.eu/eures e responda às ofertas publicadas.

- A ONU mantém concursos abertos sobretudo para diplomatas, tradutores e profissionais de saúde: www.un.org.

- No site do Ministério dos Negócios Estrangeiros descubra novas oportunidades em organizações internacionais: www.min-nestrangeiros.pt

- Inscreva-se em portais de emprego no estrangeiro:

www.portalemprego.eu.pt

www.stepstone.pt

www.radstad.pt

www.vedior.pt

Ana Catarina Pereira

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