“A nós o que é nosso”

 Quem não se lembra de ter jogado, nos tempos de escola, ao lenço, ao berlinde, ao peão ou à cabra-cega? Quem nunca passou por uma tasca onde homens barrigudos jogam à sueca enquanto bebem uma cerveja? Quem nunca assistiu a um jogo da malha no largo da igreja de uma qualquer aldeia de Portugal? Ou quem nunca tentou perceber os complicados esquemas mentais de um jogo de xadrez e acabou por preferir a simplicidade das damas? Todos eles são jogos tradicionais, que fazem parte da cultura de um país. Apesar disso, estão a perder importância face ao fabuloso mundo das consolas e restantes realidades virtuais.

 Preocupados com o caso, os elementos da Confederação Portuguesa das Colectividades de Cultura, Recreio e Desporto decidiram organizar, em 2008, a primeira Convenção Nacional sobre Jogos Tradicionais. Em Setembro desse ano, Vila Nova de Gaia recebeu uma multidão de 600 pessoas que participaram activamente em todas as actividades, aplaudindo com entusiasmo os discursos proferidos.  Em tom de campanha eleitoral, alguns dirigentes apelaram a outro tipo de voto de confiança, diferente do que habitualmente se conquista nas urnas: “Não chega clamar que os Jogos Tradicionais são importantes. É necessário colocar gente bastante, com qualidade e importância, a discuti-los, a reclamar para eles outra atenção, a produzir comentários, a colocar neles a sua assinatura reconhecida. É necessário dignificar os Jogos Tradicionais, trazer quem os pratica e quem os organiza a ouvir falar deles, colocá-los no palco do interesse e da visibilidade. Sentir que são gente importante porque praticam e organizam algo que é importante, que é nosso!” E assim prosseguiram os discursos, com igual entusiasmo e forte apelo à participação cívica.

 “A nós o que é o nosso” tornar-se-ia o slogan desta acérrima campanha, pelo que procurámos descobrir o que se passou depois do encontro. José Maria Silva, vice-presidente da Confederação, explica-nos que têm procurado defender da melhor forma possível as tradições culturais, de recreio e de desporto do país. Na sua opinião, os jogos tradicionais fazem parte da cultura portuguesa e é por essa razão que devem ser divulgados e respeitados. Para o tentar provar, mantém o discurso mobilizador, mesmo na ausência de um grande público que o possa aplaudir: “Nós devemos ser guardiões das nossas tradições, para defendermos a nossa raiz, a nossa cultura e a nossa memória colectiva. Vivemos num mundo globalizado, se não soubermos preservar as nossas tradições, daqui a pouco é igual vivermos em Portugal ou na China.”

 Sublinhando alguns traços especificamente nacionais desta cultura, José Maria Silva afirma que a malha é tipicamente portuguesa, não se jogando em mais nenhuma parte do mundo. As regras parecem simples: para começar são apenas necessárias quatro malhas de madeira, ferro ou pedra (duas para cada equipa) e dois pinos (paus redondos que se possam equilibrar na vertical). As duas equipas participantes são constituídas por dois elementos cada. Num terreno liso e plano, são colocados os pinos, na mesma direcção, com cerca de 15/18 metros de distância entre eles. Cada equipa encontra-se atrás de um pino. Joga primeiro um elemento de uma equipa e depois o da outra, tendo como objectivo derrubar ou colocar a malha o mais próximo possível do pino onde está a outra equipa, lançando-a com uma mão. Em termos de pontuação, cada derrube vale seis pontos e são atribuídos três pontos para a malha que fique mais perto do pino. Quando uma equipa atinge os 30 pontos, ganha.

 E as explicações continuam, povoadas de memórias de cantilenas da infância (“Óh lenço, óh larenço, aqui fica o lenço”) e de perguntas indiscretas: “Cabra Cega, donde vens?”. A corrida de sacos, o jogos dos bilros, o jogo da macaca ou da corda fazem também parte deste mapa sentimental que parece distante e apagado da contemporaneidade.  Para contrariar a nostalgia e trazer estas tradições para os dias que correm, a Confederação Portuguesa das Colectividades de Cultura, Recreio e Desporto, move-se de Norte a Sul do país, promovendo acções de formação com professores e alunos. Nem que seja por breves instantes, as crianças largam os Magalhães e os adolescentes esquecem os telemóveis e MP3. Ficam então a saber como se brincava antigamente, sem acesso a tantas tecnologias portáteis. As reacções são maioritariamente positivas, como garante José Maria Silva: “Os miúdos gostam e aprendem depressa.”

Por outro lado, e porque a Confederação procura atingir diversos públicos, os seus dirigentes realizam o mesmo périplo por lares e centros de dia que apoiam idosos. Aqui não se trata de aprender, mas antes de reviver as memórias e ser novamente feliz com o passado tornado presente: “As pessoas gostam de nos receber e de recordar os velhos tempos.” Na tentativa de promoção do bem-estar e da saúde das populações mais envelhecidas, a Confederação defende uma filosofia universalista do desporto: “Para nós, toda a gente tem direito a praticar desporto, incluindo idosos e pessoas com deficiências físicas.” No âmbito de um programa governamental denominado “Agita”, promovem o slogan “Mexa-se pela sua saúde”, apelando a uma prática desportiva diária, sem objectivos federativos ou competitivos: “O desporto não é só competição, nem para aqueles que ganham medalhas. O desporto tem muito de convívio e de cuidar da saúde”, sublinha o dirigente.

 Por último, dedicam ainda especial atenção aos membros das pequenas e médias associações desportivas espalhadas por todo o país, na tentativa de que este espírito entusiástico contagie multidões: “Tentamos dar-lhes formação e informação sobre todos os jogos tradicionais, para que eles os possam divulgar nas suas terras.” Para concretizar este tipo de iniciativas, José Maria Silva explica que, para além dos apoios comunitários conseguidos ao nível do QREN, a Confederação tem também protocolos com a Sociedade Portuguesa de Autores e com os ministérios do desporto, da educação e da cultura.

 Para além da formação, a Confederação apoia ainda iniciativas de investigação dentro da temática: “Nós já fizemos um levantamento e sabemos que há cerca de 200 jogos tradicionais que se praticam em Portugal, com algumas especificidades. A malha não se joga no Alentejo da mesma forma que se joga no Porto.” Atentos a estas características, tentam redigir normas e regras que respeitem os dois lados, sem impor uma fórmula mais correcta. É também com este espírito que organizam campeonatos de malha e sueca - os dois jogos tradicionais mais praticados em Portugal - e demonstrações públicas de todos os outros. Ao primeiro encontro em Gaia seguiu-se um outro, no ano passado, em Gondomar, onde estiveram presentes 3 000 pessoas. O crescente sucesso da iniciativa tem transmitido optimismo a José Maria Silva e aos restantes dirigentes. Este ano, em Maio, quando forem recebidos em Matosinhos, esperam dobrar o sucesso.

 Entre os restantes projectos da Confederação está também a criação de um Museu dos Jogos Tradicionais, com uma base de dados informatizada, que possa ficar disponível online: “Por estranho que pareça, as novas tecnologias podem ter um papel importante na preservação da cultura tradicional”, afirma José Maria Silva. Sublinhando que já existem algumas estruturas municipais que apoiam estas iniciativas, enumera alguns exemplos concretos: “Em Bragança, Beja e Macedo de Cavaleiros, as Câmaras construíram parques só para este tipo de jogos. Em Gondomar há um campo específico para jogar a malha. Felizmente, as coisas vão-se aperfeiçoando e evoluindo.”

 Sempre com um sentido corporativo no seu discurso, José Maria da Silva afirma que a Confederação defende essencialmente os interesses dos seus associados - as várias associações desportivas espalhadas por todo o país: “Nós representamos o movimento associativo popular - as pequenas e médias colectividades de cultura, recreio e desporto.” Para nos dar uma ideia da grandeza dos números, gaba-se de poder dizer: “Nós representamos 20 000 colectividades do país inteiro! Noventa por cento da cultura que se faz em Portugal é promovida por estas colectividades. Setenta por cento do desporto que se pratica também são elas que organizam.” Mas os grandes números não se ficam por aqui. De acordo com José Maria Silva, as associações culturais e desportivas formam o maior movimento voluntário do país: “Ao todo, somos quatro milhões de voluntários, desde os dirigentes da Confederação a todas as pessoas que colaboram com as pequenas e médias associações.” Apesar dos valores apresentados (ou por causa deles mesmos), lamenta a invisibilidade deste tema nos media, bem como a falta de apoios governamentais: “Nós sabemos que o dinheiro é pouco, e que o país está em crise, mas achamos que merecemos mais apoios por parte do Estado. A nós o que é nosso”, sublinha o vice-presidente.

Ana Catarina Pereira

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