Clube do Optimismo

 

 “Ser feliz!” Não é preciso ser adivinho para afirmar que este foi o desejo de milhões de portugueses que cumpriram a tradição das passas na entrada do novo ano. Assim sendo, a Nós foi à procura de um clube que ajuda os seus sócios a cumprir a hercúlea tarefa. Não jogam na primeira divisão da liga, nem sequer manifestam grandes preferências clubistas. Mas, se o que os especialistas na matéria dizem for verdade, e o primeiro passo para ser feliz for acreditar na felicidade, então este clube deverá estar prestes a vencer o campeonato.

 Em Lisboa, próximo do Largo da Estefânia, encontrámos um espaço que não promete curas milagrosas para a tristeza, não afirma que o segredo se deve buscar na espiritualidade, nem sequer apresenta um exaustivo cardápio de massagens esotéricas. Para Maria do Carmo Oliveira, a directora do Clube do Optimismo, a felicidade encontra-se simplesmente dentro de cada um. Basta procurar. A fórmula, na opinião da especialista, não é simples - requer algum trabalho; mas também não é secreta - está à vista de todos. Pode aplicar-se a inúmeras situações, independentemente dos sonhos que se pretenda concretizar: ultrapassar uma perda, construir uma empresa ou melhorar a vida pessoal. Consciente de que nem todos os seres humanos nascem optimistas, defende que qualquer altura é a mais adequada para se alterar posturas e comportamentos.

 Antiga professa primária, Maria do Carmo Oliveira esteve sempre ligada ao ensino e ao trabalho com crianças e adolescentes. Paralelamente, foi enriquecendo a sua formação com a licenciatura e mestrado em Psicologia, pelo Instituto Superior de Psicologia Aplicada (ISPA). Há cerca de oito anos, numa das escolas em que leccionava, seguiu os conselhos da obra de Maria de Fátima Perloiro, Helena Marujo e Luís Miguel Neto, Educar para o Optimismo, e procurou implementar um programa semelhante, que envolveu alunos, pais, professores e funcionários. O sucesso da iniciativa foi notável, tanto por parte dos alunos que progrediram ao nível da auto-estima e da concentração, como por parte dos próprios pais, que notaram a evolução dos filhos e começaram a pedir este tipo de formações para adultos. Inspirada pelas boas reacções obtidas, Maria do Carmo Oliveira pensou em levar este programa a mais escolas e a mais adultos. Há três anos fundava assim, em sociedade com o marido, o Clube do Optimismo.

 

 

Palestras e workshops

 Curiosidade, receio, descrença, entusiasmo ou um frio na barriga. São várias as sensações que os sócios do clube experienciam antes de entrarem nestes programas. Os objectivos a que se propõem requerem empenho pessoal e a realização dos exercícios prescritos. Mas as vantagens, segundo Maria do Carmo Oliveira, são inúmeras. Na sua opinião, uma pessoa optimista não é o ingénuo ou inconsciente que acredita que “vai correr tudo bem”. A diferença entre um optimista e os restantes é que o primeiro encontra sempre formas de ultrapassar os obstáculos: “As implicações desta forma de pensar são notáveis não só a nível comportamental, como também a nível físico. Está cientificamente provado que estas pessoas adoecem menos, são menos propensas a depressões (que é a grande doença do século XXI), têm um melhor sistema imunitário e recuperam melhor de doenças graves.”

 No Clube do Optimismo, são paredes de cores vivas, com frases motivadoras e imagens de sorrisos contagiantes, que dividem as salas de formação e sessões individuais. Dos programas apresentados fazem parte vários cursos, palestras e sessões de coaching, em acções personalizadas em função da pessoa, empresa ou escola. A título de exemplo, Maria do Carmo Oliveira relembra alguns dos workshops que podem ser ministrados em qualquer ponto do país: “O código da felicidade ”. De acordo com a psicóloga, o programa intensivo de um dia permite ao formando saber claramente quais os seus objectivos de vida, bem como definir as melhores estratégias para os alcançar.

 Mas há mais. “Workshop Pink Power: Auto-estima e poder pessoal sem limites. Desenhado especialmente para mulheres, com o objectivo de provocar o maior impacto nas crenças negativas sobre si própria e colocar a sua auto-estima onde deve estar, este divertido workshop ajudará a fazê-la sentir-se uma verdadeira VIP. Partindo das mais recentes investigações em Psicologia Positiva, Neurociências e PNL, este workshop objectiva provocar modificações que a levarão a melhorar a sua auto-estima, auto-confiança e a sentir-se a pessoa especial que é.”

 E os títulos promissores prosseguem. No terceiro lugar da ementa figura uma acção de formação de carácter mais romântico: “Workshop Love Power: segredos da felicidade a dois” E o que busca esta nova modalidade? A resposta é simples: “Pensado para guiar o casal na direcção da máxima felicidade e harmonia, este workshop junta os mais recentes avanços científicos nesta área, com a conhecida e divertida fórmula Life do Clube do Optimismo. Informação rica, prazer e divertimento garantido a dois, durante uma tarde de reais transformações.”

 Para evitar a correria desenfreada do dia-a-dia, este clube oferece também um programa alternativo: “Aprender a viver com humor: estratégias para uma vida sem stress. Seguindo as mais recentes investigações no campo do desenvolvimento do humor e da psicologia positiva, este workshop vai surpreendê-lo pela sua capacidade de mudar a visão da sua própria vida. É um eficaz método de carregar baterias e aprender a usar o humor no dia-a-dia, no seu emprego e na sua vida, com resultados de chorar por mais”.

 Os métodos utilizados pela psicóloga e pela sua equipa de trabalho centram-se, desta forma, na melhoria da auto-estima dos seus clientes. Este aspecto é fundamental, sobretudo nos períodos da infância e adolescência: “Os pais já perceberam que este se trata de um investimento no futuro. Uma criança com uma boa auto-estima será um adulto mais confiante e melhor profissional”, reforça a especialista. Assim sendo, tanto no clube como nas actividades realizadas no exterior, o seu trabalho desenvolve-se num sentido preventivo: “Muitas vezes, as abordagens focam-se precisamente nas dificuldades de cada um, quando se deveriam centrar nas competências e nos pontos fortes. Todos nós temos imensas qualidades que, por vezes, estão bloqueadas ou esquecidas. Ao focarmo-nos nas dificuldades estamos a diminuir a nossa auto-estima.”

 A teoria deve ainda aplicar-se, na sua opinião, à própria crise económica constantemente noticiada pelos meios de comunicação social: “A mensagem que estão sempre a passar é que não se pode vender, nem comprar; e as pessoas não compram, nem vendem, o que leva a uma estagnação da economia e a um crescente desemprego. Entramos num ciclo vicioso e, aí sim, estamos a alimentar a crise.” As consequências desta divulgação, segundo afirma, afectam a vida pública e privada de cada um: “Focarmo-nos nas coisas negativas leva a que nos sintamos desanimados e não sejamos pró-activos. Culpar a crise é colocar o foco num problema externo de que ninguém tem propriamente culpa, o que leva as pessoas a optarem por não fazer nada. Isso é um mau exemplo para as crianças e jovens que são educados na não pro-actividade, e que ficam à espera de que o mundo se desenvolva por si próprio.” Lançando um alerta aos pais, Maria do Carmo Oliveira sublinha ainda que este exemplo está a formar futuros adultos pouco empreendedores e activos, incapazes de resolver os seus problemas: “Se eles ouvem constantemente os pais dizerem que ‘isto está muito mal, não há solução, não há nada a fazer’, vão optar por dar o mesmo tipo de explicação quando, por exemplo, tiverem má nota num teste.”

Fora da zona de conforto

Para além dos workshops e palestras mencionados, o Clube do Optimismo organiza ainda inúmeras actividades ao ar livre. Escaladas, montanhismo, idas à praia ou ao campo fazem parte do programa regular e do espírito aventureiro que caracteriza os seus dirigentes. Com entusiasmo, Maria do Carmo Oliveira sublinha as inúmeras mudanças de atitude a que vai assistindo: “Muitas pessoas começam por dizer ‘não consigo’ frente a uma parede que vai ser escalada. Depois, quando ultrapassam todos os obstáculos, ficam eufóricas!”

 Na sua opinião, a realização deste tipo de iniciativas é fundamental para a manutenção de um espírito optimista: “É necessário tirar as pessoas da sua zona de conforto. É importante que as pessoas saiam do seu sofá e parem de ver televisão por alguns momentos. Tudo isto é muito revigorante, mesmo que a pessoa esteja cansada!” Para tal, a psicóloga tenta que os sócios do seu clube adoptem uma postura resiliente e persistente no dia-a-dia. Talvez por isso os seus maiores clientes sejam empresas e câmaras municipais. No caso das primeiras, Maria do Carmo Oliveira sublinha que os directores a contactam frequentemente, afirmando terem verificado grandes mudanças ao nível da produtividade, relacionamento interpessoal, absentismo e motivação. Apesar disso, relembra que os bons resultados se encontram dependentes do tipo de formação ministrada: “É como tomar vitamina C - não se fica imune às constipações por se tomar uma vez na vida, mas tem que se ir tomando. Também neste tipo de casos é necessário que exista uma certa reciclagem. As pessoas saem entusiasmadíssimas das formações de algumas horas, mas é necessário que continuem a investir nestas áreas, e que continuem a fazer formação.” A nível nacional, as câmaras municipais parecem igualmente sensibilizadas para a temática, contratando cada vez mais sessões deste tipo: “Também somos muito procurados por professores e por técnicos de serviço social, para estimular o optimismo nos alunos e nos seniores”, sublinha Maria do Carmo Oliveira.

 Em jeito de conclusão, pergunto ainda se é fácil trabalhar o optimismo com os portugueses. A resposta é clara: “Sem querer comparar os resultados, nós já temos dado formação no Brasil e é verdade que, pelo menos inicialmente, eles estão sempre muito mais abertos a este tipo de iniciativas. Aderem imenso e dizem sempre ‘vamos conseguir’.” O entusiasmo inicial em terras de Vera Cruz é assim contrastante com a atitude da maioria dos lusitanos: “Quando damos formação a empresas, muitos empregados ainda vão por serem obrigados, embora à segunda vez já estejam cheios de vontade. Em Portugal ainda existem muitos velhos do Restelo, que chegam aqui a dizer que isto da psicologia positiva não serve para nada e que é uma grande história. Felizmente, vão sendo sempre contrariados pela evolução dos cursos e dos resultados”, conclui Maria do Carmo Oliveira.

Ana Catarina Pereira

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