A nostalgia do vinil

 

Em segunda, terceira ou quarta mão, três lojas de Lisboa vendem verdadeiras relíquias que fazem as delícias dos coleccionadores. Porque há quem continue a resistir ao CD, ao iPod e às músicas descarregadas no computador portátil, o vinil está de volta e parece ter vindo para ficar.

Louie Louie

Na Rua Nova do Trindade, perto do Chiado, situa-se a Louie Louie. Duas lojas do mesmo grupo já existiam em Braga e no Porto, quando, em Dezembro de 2007, os sócios decidiram apostar no também nostálgico mercado da capital. O nome é uma espécie de homenagem à célebre canção de rock’n’roll americano, originalmente popularizada pelo grupo de garagem Kingsmen, com inúmeras versões posteriores. Para Jorge Dias, um dos proprietários, a escolha representa um “símbolo vivo da longevidade do estilo”.

Quando questionado sobre uma nova moda de discos em vinil, garante-nos que esta nunca havia desaparecido por completo: “O mercado do vinil nunca morreu, mas ultimamente tem sido revitalizado por um renovado interesse no objecto.” Para Jorge Dias, o facto está relacionado com o estatuto de pequeno luxo que o vinil adquiriu, sobretudo no caso das primeiras edições: “É o contraponto à banalização digital. Só tem LPs quem quer e quem pode. É preciso o interesse, a dedicação e o poder de compra para constituir uma discoteca pessoal digna desse nome. E há quem o queira fazer, por amor a uma visão mais íntegra e estruturada desse património que é a música, e também pelo valor e requinte do objecto.”

A Louie Louie está aberta ao público todos os dias da semana, das 11h às 20h, embora ao domingo abra apenas às 15h. Pouco limitada em termos de estilos, tem discos de todas as áreas, do rock ao pop, passando pelo metal, hip-hop, drum & bass e reggae. Sempre atento às raridades e edições limitadas, Jorde Dias garante que aceitam encomendas dentro de qualquer género de música. Milhares de títulos em stock, nos formatos 7”, 10” ou 12”, incluem clássicos dos The Doors, Pink Floyd, Lou Reed e Elvis Presley, ao lado de novos álbuns de Massive Attack ou Wraygunn. Os amantes dos ritmos mais aconchegantes do outro lado do Atlântico, como a bossa nova ou o jazz, encontram aqui algumas raridades de Milton Nascimento, Maria Bethânia, Chico Buarque, Miles Davis e George Benson. Quanto aos preços, variam entre os 5 e os 10 euros, no caso dos álbuns em segunda mão (embora também existam alguns singles a partir de 2,5 euros). Os LPs novos variam entre os 15 e os 25 euros.

Past Perfect

Também no bairro de Campo de Ourique existe uma loja de raridades em vinil. No segundo andar, do número 39, da Rua Sampaio Bruno situa-se um pequeno espaço, que apesar de discreto e pouco publicitado, apresenta um stock igualmente interessante. Past Perfect é uma loja especializada em música anglo-saxónica dos anos 60 e 70 – as duas décadas em que os géneros psicadélica, garage-rock, progressiva, folk e rock surgiram e ditaram regras no mundo da música. Para o proprietário Luís Rodrigues, este foi um período áureo em que, como afirma, “a criatividade e a qualidade dos respectivos autores atingiram níveis jamais igualados ou superados.” E é precisamente de respeito e admiração que vive esta loja. Aberta de terça a sexta-feira entre as 15h e as 19h e aos sábados de manhã, atinge um maior nível de vendas no universo virtual. O site www.pastperfect.com.pt tem disponível cerca de 600 mil artigos onde se pode encontrar de tudo: da música clássica ao folk, passando pela world music, o rock e o jazz.

No espaço físico, a língua portuguesa encontra-se bem representada, com clássicos de José Mário Branco, Fausto, Vitorino ou Dora, ao lado da bossa nova do Brasil. Para Luís Rodrigues, satisfazer pedidos exigentes é um dos desafios que mais gosta de encarar. De entre várias situações, destaca o pedido do vinil original “Absolute Lee” de Lee Michaels, para um coleccionador que há vários anos procurava a raridade. De entre os principais clientes da Past Perfect, destacam-se precisamente estes “caçadores de tesouros”, embora o proprietário saliente que a nova moda do vinil lhe granjeou inúmeros clientes jovens, incentivados tanto pela reedição de trabalhos antigos, como pela edição de obras recentes neste tipo de suporte.

Com um slogan inspirador (“Past Perfect – No Time Music”), Luís Rodrigues refere ainda, em tom nostálgico, que músicas intemporais “são todas aquelas que não esquecemos, que continuamos a ouvir sem nos cansarmos e que não mostram sinais da passagem dos anos.” De entre os milhares de títulos aqui vendidos, destaca os clássicos de Bob Dylan, Leonard Cohen, The Doors, Simon & Garfunkel, Tim Buckley e The Beatles: “Tudo bandas que encaixam perfeitamente nesse conceito”. E porque nem só de vendas vive a Past Perfect, o proprietário destaca ainda o carácter tertuliano do espaço: “Temos vários clientes fidelizados que encontram aqui não apenas os discos e CDs que procuram, mas também um local onde trocam opiniões e informações de âmbito musical, descobrindo novos pontos de interesse nos diversos géneros musicais.”

Carbono

Na Rua do Telhal, próximo da Avenida da Liberdade, situa-se um dos espaços mais antigos de Lisboa dedicado a este tipo de comércio. Inaugurado há 16 anos no centro comercial Portugália, na Avenida Almirante Reis, ocupa as actuais instalações desde 2007. A Carbono está aberta de segunda a sábado, das 11h às 19h.

O espaço tem cerca de 300 metros quadrados, divididos por dois andares. Para além de vinis novos e antigos, a Carbono vende ainda livros de música, CDs, cartazes e t-shirts. De entre a vasta oferta de LPs, destacam-se algumas novidades como PJ Harvey ou Portishead. De entre os vinis antigos, o proprietário João Moreira orgulha-se especialmente da colecção de singles, maioritariamente de primeiras edições. Como nos explica, nas décadas de 50 e 60 as grandes bandas gravavam apenas este tipo de LP, com capas diferentes para cada país onde viriam a ser comercializados: “Um verdadeiro coleccionador de Roling Stones, por exemplo, faz questão de ter todas as capas dos singles editados. As grandes bandas como os Beatles, os Who ou os Roling Stones têm carradas de singles, e nós vendemos grande parte deles.”

 

Alheios a qualquer crise económica que pareça ter afectado o país ou o mundo, João Moreira afirma que os grandes coleccionadores continuam a ser os seus principais clientes: “Eles adoram gabar-se de terem a primeira edição de um álbum dos Beatles ou dos Roling Stones. Para além disso, antigamente, a qualidade de prensagem era melhor do que a de agora, o que torna estes discos umas verdadeiras relíquias.” A par destes clientes fixos, que todos os meses compram e vendem discos, João Moreira sublinha ainda a existência de uma nova vaga de clientes, que começaram a surgir nos últimos dois a três anos. Na opinião do proprietário, a “moda do vinil” terá sido impulsionada pelo próprio cinema: “Há realizadores que tentam combater aquela história do CD e do iPod, porque qualquer um pode fazer um download e gravar o CD em casa. Com o disco isso já não acontece. O disco tornou-se um artigo de luxo, que fica bem no grande ecrã.”

Além do mais, e por incrível que possa parecer, as diferenças sonoras constituem também um ponto a favor do vinil. Na opinião de João Moreira, muitos clientes, incluindo os apreciadores de música clássica, preferem o vinil ao CD. “O CD transmite um som mais frio, muito limpo, enquanto o vinil traz uma envolvência sonora diferente, mais quente.” Por sua vez, o ritual de escuta é também distinto: “Ouvir um LP é como ler um livro. Enquanto a pessoa está a ler, ou a ouvir um disco, não pode fazer duas coisas ao mesmo tempo. O vinil requer muito mais atenção do que um CD: tirá-lo da caixa, limpá-lo, limpar a agulha, mudar de lado…” Uma nostalgia que requer tempo e dedicação nos dias que correm. Afinal de contas, nem sempre é bom perder velhos hábitos.

Texto Ana Catarina Pereira

Fotografia Gonçalo Santos

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