Educar para o Optimismo

Uma meta possível

 

 O que caracteriza uma pessoa optimista? Qual a melhor estratégia para alcançar a realização pessoal e profissional? Porque é ainda tão difícil associar esta característica aos portugueses? A Nós procurou respostas para todas estas questões. Fomos falar com Helena Marujo, professora da Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa e especialista na matéria.

 É uma das autoras da obra Educar para o Optimismo, em parceria com Maria de Fátima Perloiro e Luís Miguel Neto; formadora, dirigente da International Positive Psychology Association (EUA), representante portuguesa na Rede Ibero-Americana de Psicologia Positiva e membro da Comissão Científica da Associação Portuguesa de Estudos e Intervenção em Psicologia Positiva. Com a garantia de que este é o resumo mínimo de um vasto curriculum, antevia-se uma aceitação generalizada das suas teses e princípios, embora tal não aconteça. Dentro do meio académico, Helena Marujo afirma ser bastante contestada, situação que compara à da maioria dos artistas e empreendedores nacionais que diariamente enfrentam obstáculos ao seu processo de afirmação profissional: “Em Portugal, quem tem sucesso já sabe que vai ser puxado para baixo.”

 E é precisamente por esta falta de incentivos que começamos a nossa conversa. Na opinião da especialista, os portugueses sofrem de uma enorme dificuldade em reconhecer o que têm de bom: “Para nós, um simples elogio, que não custa nada a fazer, é sempre considerado excessivo. A pessoa tem sempre medo de estar a estragar o outro com mimos. Por outro lado, não temos a mesma reserva em relação à crítica, que estamos constantemente a realizar.” Para Helena Marujo, esta posição é confortável e permanente: “É muito mais fácil sermos críticos em relação a nós próprios e aos outros, do que termos uma visão animada sobre a vida.”

 Inseridos numa matriz judaico-cristã, os portugueses parecem gostar de competir entre si na desgraça: “Mesmo que a pessoa seja optimista, acaba por não se poder afirmar como tal. As conversas privadas, entre amigos, vão sempre no sentido dos problemas e do que não está a correr bem”, sublinha a especialista. A situação é ainda mais grave quando a maioria dos lusitanos teme que algo de mau esteja prestes a acontecer, pelo simples facto de atravessarem uma fase de vitórias ou estabilidade pessoal. Considerando que este é um traço exclusivamente nacional, que não se verifica do outro lado da Península Ibérica ou nas ex-colónias portuguesas, a investigadora procurou uma explicação histórica para a generalidade dos comportamentos. E encontrou.

 

A raiz do problema

 De entre todas as obras estudadas ao longo do seu percurso académico, Helena Marujo destaca Evil in Modern Thought, de Susan Neiman. Segundo a filósofa norte-americana, no mundo inteiro, existem “três cidades do mal” responsáveis pelo comportamento pessimista dos seus habitantes: Hiroshima, Auschwitz e Lisboa. A inserção das duas primeiras neste eixo do mal prende-se com dois desastres provocados pelo Homem, enquanto a escolha da última cidade se deve a um acidente de causas naturais. Na sequência do terramoto de 1755, a Europa terá atravessado uma fase pessimista, comprovada pela transformação do pensamento de intelectuais como Voltaire e Rousseau: “Nessa época, os grandes filósofos começaram a discutir se nós merecíamos o que nos tinha acontecido. Foi um período próspero para Portugal, em que trazíamos ouro do Brasil e explorávamos os escravos das ex-colónias. Surgiu então a questão de Deus, do destino e do castigo, que nunca mais nos abandonou.” Aceitando a hipótese avançada por Neiman, Helena Marujo sublinha tratar-se de um único acontecimento decorrido há cerca de 250 anos, o que representa muito pouco em termos históricos e geracionais.

 O interesse da investigadora pela temática do optimismo teve origem na década de 90. Quando iniciava a sua tese de doutoramento, Helena Marujo pressentia uma certa tendência nacional na direcção oposta, que rapidamente viria a comprovar através do estudo empírico realizado. Seleccionando uma amostra de 2200 crianças e jovens de colégios privados da região de Lisboa, com idades compreendidas entre os 8 e os 18 anos, concluiu que a postura desanimada e crítica começava nos primeiros anos de vida dos portugueses. “O meu objectivo era estudar a depressão em contexto escolar, com crianças que, em princípio, têm todas as necessidades básicas asseguradas. Comparando com outros estudos semelhantes realizados em Espanha ou nos EUA, os nossos meninos estavam, de facto, mais tristes. Quase todos sentiam uma grande pressão para o sucesso, dizendo que se não fossem bem sucedidos ninguém gostaria deles”, afirma a investigadora. A partir dos dados recolhidos, pôde realizar uma extrapolação para a generalidade dos portugueses: “Somos um país onde a hierarquia, a estratificação e a comparação são muito fortes. Estamos sempre a comparar-nos com os outros, e está cientificamente provado que o ciúme é causa de infelicidade.”

 Preocupada com os resultados obtidos, Helena Marujo sentiu o peso de uma tripla responsabilidade, enquanto professora, investigadora e mãe de família: “Senti que era necessário agir e fazer alguma coisa por estas crianças, não só tentando perceber a origem do fenómeno, mas sobretudo tentando intervir.” Assim escreveria a obra já citada, Educar para o Optimismo, em parceria com dois colegas. De entre os conselhos essenciais sobressaem uma urgência em cultivar a auto-estima dos mais novos, bem como um treino intensivo do sentido de humor e da observação positiva. Na opinião da especialista, é importante que as crianças relatem os acontecimentos do seu dia-a-dia de uma forma optimista, começando pelo que mais gostaram de experienciar, em vez de referirem primeiramente as contrariedades. Este é um princípio que Helena Marujo também gostaria que contagiasse os próprios pais e a restante sociedade: “No fundo, acho que estamos um bocado cansados de ser assim, mas também não somos capazes de ser de outra maneira. Nós escolhemos a vitimização como forma de vida, o que nos impede de avançar, e isso é terrível porque toda a gente precisa de um horizonte de futuro. Quem passa a vida a queixar-se não vive.”

Mapa do optimismo

 Não defendendo que o optimismo e o pessimismo são filosofias de vida ou estados de espírito contínuos, a investigadora considera que a maioria das pessoas não necessita de se situar em nenhum dos extremos: “Eu tenho uma visão adaptativa do optimismo. Uma pessoa optimista não é um tonto, sempre feliz, mas alguém com os pés bem assentes na terra, que sabe avaliar os riscos das suas decisões.”  Ainda assim, para diferenciar os dois tipos de atitudes, Helena Marujo refere que um pessimista encara um acontecimento positivo (a progressão na carreira, um bom resultado escolar ou uma conquista pessoal) como um fenómeno exterior a si: “tive sorte, mas não vai voltar a acontecer”. O optimista, por sua vez, vive os bons acontecimentos como recompensas merecidas pelo seu empenho e dedicação.

 Enquanto observadora constante do mundo que a rodeia, Helena Marujo considera que o stress e a correria do dia-a-dia vão piorando progressivamente o estado de espírito dos portugueses: “Estamos sempre a trabalhar, para tentar ganhar algum dinheiro e ir a correr gastá-lo nos centros comerciais. Isso não é nada. Era melhor que as pessoas tentassem marcar e inspirar os outros, fazendo coisas socialmente relevantes.” Como solução imediata para a falta de optimismo nacional, a especialista aponta alguns caminhos: “É preciso acreditar nas coisas boas que o futuro nos irá trazer. Nós passamos a vida a olhar para o passado e a pintá-lo de cor-de-rosa, embora nessa altura nem sequer nos tenhamos dado conta que estávamos a viver uma boa fase.”

 A título de exemplo, afirma que a felicidade e o optimismo são posturas contagiantes, que passam sobretudo por pequenos gestos. Frequentemente convidada a dar sessões de formação para operadores de call centers, Helena Marujo realizou um estudo recente entre os seus formandos. Quando os questionou sobre o que os faria mais felizes no seu trabalho, a grande maioria dos inquiridos respondeu que um simples “obrigado” por parte das pessoas que os contactam faria toda a diferença. Um conselho prático deixado pela especialista, ao qual associa as restantes coordenadas: muito sentido de humor, auto-estima e perseverança.

Ana Catarina Pereira

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