Dino Alves

A moda pirosa

 

 Ser português é ser piroso? Os portugueses vestem-se mal, cantam pior e ostentam gostos muito discutíveis? Viver num canto da Europa à beira mal plantado é ser diferente dos restantes europeus? Dino Alves, um dos mais irreverentes criadores de moda nacional, responde a estas dúvidas.

 

 Ao jeito de Jean Paul Gaultier, Dino Alves ostenta orgulhosamente o cognome de enfant terrible da moda nacional. Passagens de modelos teatrais, a inspiração beirã que relembra as origens e um rigoroso cuidado com os acessórios são alguns dos seus traços essenciais. Prémios e distinções foram sendo somados ao longo dos anos ao seu já vasto curriculum. Mas quem é, afinal de contas, Dino Alves? Um estilista que não gosta de revelar a idade. Natural de Anadia, estudou Pintura na Escola Superior Artística do Porto. Actualmente, vive em Lisboa e trabalha no seu próprio ateliê, em pleno coração do Bairro Alto. Resumindo, a figura ideal para consultar em caso de dúvida: como se vestem os portugueses?

 A resposta é optimista: “No geral, acho que os portugueses se vestem melhor do que há uns anos atrás. O aparecimento de uma série de lojas com coisas engraçadas tornou a moda mais democrática. Toda a gente consegue ir à H&M ou à Zara, onde há peças interessantes, apesar de serem cópias das colecções dos criadores. Hoje em dia só anda mal vestido quem quer.” Para além deste factor, Dino Alves considera que a evolução das mentalidades operou maravilhas pelo modo de ser (e de vestir) dos portugueses. Se nos anos 70 e 80 qualquer adolescente que se vestisse de uma forma diferente do habitual era imediatamente conotado com fugas às habituais opções sexuais, hoje em dia a variedade de estilos e de guarda-roupas faz com que existam menos preconceitos ou estereótipos. Na sua opinião, o futebol foi o principal impulsionador deste avanço: “O facto dos ‘Beckams’, dos ‘Cristianos Ronaldos’ e desses todos se terem começado a vestir de uma forma mais engraçada, com cores e penteados diferentes, fez com que os jovens - que eram muito machistas e preconceituosos - se identificassem com eles.” O silogismo do estilista é fácil de seguir: “O futebol é uma ‘coisa de homens’! Se eles, que são masculinos e viris, usam cor-de-rosa e acessórios de moda, é porque os homens também podem usar.”

 As diferenças relativamente há uns anos são assim, no entender de Dino Alves, notórias: “Quando eu tinha 18 anos era impensável que um rapaz pintasse o cabelo, ou fizesse madeixas. Havia um ou dois, os ‘Antónios Variações’ desta vida, e mais nada.” À produção em série e ao cinzentismo nacional parecem estar a seguir-se tendências de moda ultra-modernas. No dia-a-dia, o criador gosta de passear pelas ruas de Lisboa, observar a forma como os jovens se vestem e concluir que em nada diferem dos de outras capitais mundiais. E, para que não se pense que a moda é exclusivamente urbana ou cosmopolita, sublinha que os adolescentes da sua terra, na Beira Litoral, se vestem da mesma forma que os lisboetas: “Eles usam os mesmos cortes de cabelo. São skaters, dreads, ou têm outros estilos, tal e qual como cá (em Lisboa). Não noto diferença nenhuma.” O acesso à Internet, a canais de televisão como a MTV ou a revistas de moda fez com que as tendências se espalhassem mais facilmente, deixando de lado as eternas dicotomias Norte/Sul ou Litoral/Interior. Mesmo para os mais velhos, a abertura de espírito acabou por tornar-se uma obrigatoriedade. A convivência com estilos tão diferentes desenvolveu uma rotina que já não choca ninguém: “Eu vejo pelo meu pai: hoje em dia já acha perfeitamente normal ver um rapaz de brincos ou de rabo-de-cavalo.”

 Pela descrição optimista, quase se poderia concluir que os portugueses terão pouco a ver com o adjectivo piroso. Mas não exageremos! Frequentemente convidado para eventos de moda em Paris ou Milão, Dino Alves afirma notar uma certa discriminação pelos criadores nacionais: “Não lhes interessamos porque somos portugueses! Por outro lado, nós também não somos capazes de nos impor ou de mostrar mais…” E por que razão isto continua a acontecer? A justificação é pronunciada com alguma dificuldade: “Talvez porque ser português continua a estar relacionado com ser piroso.” Recordando um tempo em que Lisboa já esteve na moda, inclusivamente nos circuitos internacionais, Dino Alves sublinha que o interesse era gerado pelo aspecto “pitoresco” dos portugueses, que se concretiza nas sardinhas assadas, nos azulejos e na roupa estendida à janela. A notoriedade de eventos como a Expo 98 ou o Euro 2004 fez com que Portugal estivesse mais na moda, mas hoje em dia o estilista deixou de reconhecer esse estatuto.

 Como se poderá então definir o adjectivo que deu mote a esta edição? Para Dino Alves, ser piroso é um conceito essencialmente interior, que está relacionado com a falta de qualidade, sendo o exemplo mais clássico a música pimba: “Aquilo é uma coisa fácil, sobretudo em termos de orquestração e letras.” Mas desengane-se quem pense que isto é observado em tom de crítica. Aberto a todas as manifestações criativas, e reconhecendo que a inspiração pode ser buscada tanto nas melhores como nas piores, o estilista segue atentamente as tendências deste universo: “Eu próprio, muitas vezes, dou comigo a assistir e a gostar de coisas que, à partida, são de um universo piroso, como algumas músicas e certos programas de televisão. Eu já fui a um concerto da Ruth Marlene com amigos, porque me queria divertir.  Eu gosto de ver tudo o que se passa à minha volta, para me inspirar.” Afirmando que, por vezes, também ele próprio é um pouco piroso, considera que aquilo que faz tem um gosto e uma sensibilidade estética apurada: “O piroso diverte-nos. Por vezes, apetece ouvir esse tipo de música ou ver um filme mais comercial, porque estamos cansados e as outras coisas fazem-nos pensar. E pensar dá muito trabalho.”

 Para Dino Alves ser piroso é também uma questão de timing: “Os pirosos acabam sempre por imitar aquilo que nós já fizemos há cinco anos e que, na altura, eles criticaram, gozaram e não conseguiram acompanhar. Por exemplo, há uns dez anos eu usei um corte de cabelo com uma crista em cima e rapado dos lados. Lembro-me de usar esse corte e de os rapazes mais preconceituosos olharem, apontarem e gozarem. Mas, uns anos depois, usaram exactamente o mesmo penteado.” Os fenómenos sociais são sempre difíceis de explicar, embora Dino Alves arrisque uma teoria: “Isto é uma questão de sabedoria - eles precisam de mais tempo para interiorizar as coisas. Quando uma estética aparece só é aceite passados alguns anos.” Como observador, Dino Alves regista ainda outros hábitos pirosos dos portugueses. Entre eles, o mais grave parece ser o de ir na rua e cuspir para o chão. Mas existem outros, como o uso de flores de plástico nas janelas: “Nunca percebi por que é que, se as pessoas podem ter coisas verdadeiras, optam por não ter.”

 E porque também os tempos parecem ter alterado as definições de piroso, Dino Alves, tal como Jean Paul Gaultier, já vestiu alguns concorrentes nacionais do Festival da Eurovisão. Sublinhando que este era um fenómeno que fez parte do seu universo infantil e adolescente, relembra um tempo em que existiam apenas dois canais de televisão que, obrigatoriamente, ditavam as modas e as tendências a seguir: “Na altura via aquilo como uma coisa tão longínqua e distante que nunca me imaginei a estar ali. No meu tempo, não havia outras coisas e aquilo era o evento por excelência da música portuguesa. As bandas e os hits que saíam do festival eram as que se ouviam e que se mantinham durante vários anos. Não era como agora, e isso é interessante. Naquela altura, o festival era o top e não era considerado piroso.” Hoje em dia, reconhece uma estética algo duvidosa ao evento, embora considere que estas foram duas experiências bastante interessantes: “Das duas vezes que lá estive encontrei o Jean Paul Gaultier e fiquei muito admirado. Ele é o supra-sumo da moda e da alta-costura e veste concorrentes ao festival. Mas depois pensei que não havia nenhum problema - eu próprio também estava ali!”

 Apesar da maior abertura de espírito registada nos últimos anos, Dino Alves sublinha que a relação dos portugueses com a moda acaba invariavelmente por estagnar num factor difícil de contornar. Tanto no seu caso como no de outros colegas que fazem peças únicas, a maioria dos potenciais compradores ainda coloca grandes reticências relativamente aos preços praticados, pelo que acabam por apenas poder vender para um pequeno nicho de mercado. Comparando a situação com o que se passa noutras áreas, o estilista sublinha que tal também acontece com a música e o cinema portugueses: “Nos EUA qualquer músico ou actor que venda bem um disco ou que entre num filme com muitos espectadores tem a vida assegurada. Em Portugal as coisas funcionam muito mais dentro de nichos de mercado. As vendas de discos, as idas ao cinema ou a compra de peças de criadores são muito inferiores ao que se passa lá fora.” Quando o questionamos sobre os elevados níveis de exportação de qualquer um destes bens (um filme norte-americano ou uma peça de alta-costura parisiense) diz-nos que o mesmo não se passa em Portugal: “Os portugueses continuam a não arriscar muito. Eu nunca percebi por que razão, com um parque industrial têxtil tão bom quanto o nosso, nunca criámos uma marca como a Zara, que tem sucesso no mundo inteiro!” Nacional pirosismo ou medo de arriscar? Dino Alves fica indeciso. E a maioria dos portugueses também.

Ana Catarina Pereira

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