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Viajar fora dos circuitos turísticos, através de uma agência​

 

Trekking, aventura, safari ou descoberta cultural. São quatro as modalidades de viagem que a Nomad oferece aos seus clientes, sem estadias em hotéis e resorts cinco estrelas. As características singulares dos sócios fundadores, guias e clientes fazem desta uma agência com uma filosofia de vida diferente.

Pedro Gonçalves, de 33 anos, e Tiago Costa, de 27, são os criadores deste projecto iniciado há dois anos, no Porto. Antigos gestor de empresas e engenheiro, respectivamente, sempre foram apaixonados pelo turismo de montanha e pela descoberta cultural que este lhes proporciona. Para os dois sócios, escalar o Kilimanjaro ou o Evereste não significa apenas praticar desporto, mas também contactar com a população local, conhecer os seus usos e costumes e, dessa forma, enriquecer como pessoa. É esta a filosofia da agência que criaram. Todas as viagens têm guias portugueses - os líderes Nomad - escolhidos com base em critérios de profissionalismo, dedicação e muita experiência de vida. Quanto aos clientes, afirmam que são normalmente grupos heterogéneos, com um ponto em comum: uma grande necessidade de fuga à rotina, aos trabalhos stressantes, aos fatos com gravata e aos edifícios com ar condicionado.

As propostas são inúmeras e requerem diferentes níveis de resistência física. Passar uma noite no deserto, dormir em tendas, escalar montanhas, conhecer as populações e viajar nos transportes locais são algumas das experiências que estes nómadas têm para oferecer. Que o diga Inácio Rozeira, um dos líderes Nomad que colabora com este projecto desde o início. Depois de um percurso escolar acidentado, Inácio deixou a vida académica com vontade de conhecer outros mundos. Os primeiros passos foram dados literalmente a pé, no caminho de Santiago. Seguiu-se Nepal, Peru, Bolívia, Chile, Argentina, Uruguai, São Tomé e Príncipe, Marrocos, Hungria, Sérvia, Bósnia, Croácia, Macedónia, Kosovo, Índia, Albânia…

Na Nomad, é o responsável por dois percursos: Índia e Peru. No primeiro, guia os viajantes inscritos por algumas das regiões mais exóticas deste país. A viagem tem início na caótica Deli. Não fugindo ao Taj Mahal (que constitui paragem obrigatória), passa também pela região do Rajastão, onde os viajantes contactam de perto com o culto jainista - uma vertente do hinduísmo, cujos praticantes são totalmente vegetarianos e incapazes de ferir um animal, ao ponto de se desviarem das formigas, enquanto caminham, para não as pisarem.

 

De passagem pela cidade de Varanasi, dedicada à deusa Shiva, assiste-se à cerimónia sagrada Puja, no rio Ganges, ao nascer e ao pôr-do-sol. Para além disso, aprendem-se os costumes e negoceiam-se preços nos mercados locais, viaja-se nos comboios indianos, de barco e de rickshaws (os transportes tradicionais, agora automatizados). O sagrado e o profano, a situação da mulher e as diferenças entre castas são alguns dos aspectos da cultura indiana que serão dados a conhecer ao longo de uma aventura que termina nas praias de Bombaim. Somam-se 16 dias, num custo total de 950 euros, sem voo incluído.

 

Outra das viagens lideradas por Inácio Rozeira é um verdadeiro périplo sul-americano, que vai do Peru à Bolívia. Também recorrendo a transportes locais e alojamentos familiares, os viajantes poderão conhecer de perto o legado das civilizações Inca e Aymara. Pela grande diversidade de paisagens percorridas - das montanhas dos Andes às planícies desérticas, passando pela floresta tropical - esta viagem exige uma preparação física um pouco maior e roupa adequada à variação térmica. Das etapas desta viagem fazem parte uma visita a Cusco - antigo coração do Império Inca -, uma caminhada até à cidade perdida de Machu Picchu e uma noite numa ilha flutuante, em Uros. O viajante poderá ainda explorar a Amazónia, na companhia de guias naturalistas locais. A sul, avista-se o lago Titicaca, onde se dorme em casa de uma família Aymara. Por fim, a viagem termina em La Paz, capital da Bolívia. Dezoito dias, por 1650 euros (sem voo incluído). Neste circuito peruano, os viajantes têm ainda hipótese de contribuir para uma boa causa, uma vez que, por cada grupo inscrito, a agência redirecciona parte do valor para assegurar que uma criança tem alojamento e educação durante um ano. Esta acção é realizada pela agência, em cooperação com a ONG Kiya Survivors, reflectindo o espírito de responsabilidade social da empresa.

 

Para além destes dois circuitos, a oferta Nomad é diversificada e vasta. A oriente, o cardápio inclui uma viagem pela Indochina, com passagem pelo Vietname, Cambodja, Tailândia e Laos. São também organizadas visitas a Petra e à Jordânia, um circuito literário pela Turquia com Tiago Salazar, e ainda viagens pelo Nepal, Marrocos, Picos da Europa… E porque é de aventura que se faz um espírito nómada, África não poderia deixar de constar desta imensa lista. O percurso centra-se na África Austral, percorrendo o caminho que Gonçalo Cadilhe descreve no seu livro Por África Acima. O nome deste líder quase dispensa apresentações. Dez livros de viagens publicados, a apresentação de alguns documentários e a assinatura de várias crónicas em revistas da especialidade são algumas das actividades a que se dedica.

 

Gonçalo Cadilhe afirma que vive para viajar e que escreve para viver. Quando lhe perguntamos a idade, responde que tem 20 anos, mais vinte de viagens. Começou por tentar ser gestor de empresas, mas sempre soube que esse não era o seu caminho - o que iria, de facto, percorrer teria mais pó, lama, tendas, desertos e culturas distantes, em vez de reuniões intermináveis, onde se discutem valores percentuais e negócios desinteressantes.

 

Durante a faculdade, esforçava-se por conseguir ter as notas mínimas para passar de ano, o que lhe assegurava um Verão inteiro para viajar. Nos primeiros anos de “viajante profissional”, colaborou esporadicamente com algumas revistas portuguesas, e foi aceitando trabalhos temporários que lhe permitiam financiar as próprias viagens. Foi músico, empregado de mesa e fez vindimas, entre outras actividades. Mais tarde, dedicou-se exclusivamente à escrita e à publicação de reportagens de viagem. Actualmente é cronista do Blitz, da revista SurfPortugal e do jornal Expresso.

 

Sobre a actual parceria que aceitou realizar com a agência, afirma: “As minhas experiências de viagens com a Nomad são muito pessoais. A viagem de África é baseada no meu livro, e o que me interessa é mostrar às pessoas os locais por onde andei e que têm significado para mim, em detrimento de atracções turísticas mais óbvias. Isso ainda é mais notório no caso de Itália. Eu vivi em Génova durante dez anos, e esses tempos foram fundamentais na minha vida, nas amizades que construí e que ainda hoje são as mais importantes que tenho. Quando a Nomad me desafiou para organizarmos uma viagem pela Europa, em poucos dias, eu não tinha outra opção: íamos para Itália, porque ‘eu sou de lá’. Não fazia sentido nenhum eu ser o tipo de guia que anda pelas ruas de Paris, com um chapéu no ar, a mostrar a Torre Eiffel.”

 

Feitos os devidos esclarecimentos, passemos então à definição da rota. As etapas desta viagem de cinco dias incluem conhecer o golfo de Tigullio (ou Portofino); as Cinque Terre, património da UNESCO; o milenário Sentiero Azzurro e as pracetas e ruelas das aldeias da Ligúria. Para fazer gosto ao dente, o viajante pode provar as iguarias da cozinha italiana e conhecer alguns dos amigos mais próximos de Gonçalo Cadilhe. Esta viagem tem um custo de 550 euros.

 

Em África, o líder Nomad seleccionou o percurso visitável do seu livro, excluindo países como Nigéria ou Congo. No primeiro ano em que liderou este circuito, o grupo viajou pela África do Sul e Namíbia; no segundo visitaram Botswana, Zâmbia, Zimbabué e Moçambique. Este ano (o terceiro) irão concentrar-se na Namíbia. Viajam de camião alugado, com motorista, e dormem em tendas no deserto, ou em hotéis locais. Aos viajantes, Gonçalo Cadilhe promete “noites de guitarrada e canções até às tantas, à volta da fogueira, debaixo das estrelas mais bonitas do mundo.” Do percurso, destaca também uma noite passada ao relento, num local a cem quilómetros da luz eléctrica mais próxima: “Não conheço mais nenhum sítio assim no mundo! Parece que as estrelas têm cor!” Ver leões e girafas a cerca de dez metros no Parque Nacional Etosha, assistir ao nascer do sol nas dunas no deserto do Namibe, visitar a Costa dos Esqueletos, ou pegar em crias de animas selvagens ao colo são alguns dos pontos-altos desta viagem que faz parte das escolhas pessoais de um dos maiores viajantes portugueses.

 

Dos grupos que já liderou, guarda as melhores recordações e afirma que o contacto se mantém: “Dos elementos do último grupo com que viajei, recebo cerca de 15 e-mails por dia. Já combinámos um leitão na Bairrada e um fim-de-semana no Alentejo. As pessoas ficam mesmo amigas!” A partilha de experiências únicas parece uni-las e marcá-las para sempre. Aventuras que se vivem a cada minuto que passa e que, mais tarde, se recordam com saudade.

Texto Ana Catarina Pereira

Fotografia Humberto Almendra

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