Perfis Tacanhos

 Em entrevista a cinco portugueses residentes no estrangeiro, fomos procurar saber se os lusitanos têm (ou não) um espírito tacanho.

 

Daniela Santos, 29 anos

(Gestora de projectos em Bruxelas)

 

 “Somos tão tacanhos quanto os demais povos.” A afirmação é de Daniela Santos, gestora de projectos numa ONG belga. Residindo há dois anos na cidade mais eurocrata do velho continente, formula algumas teorias acerca das semelhanças entre os portugueses e os representantes de outras nacionalidades:  “Ainda que a tão afamada globalização nos proporcione maior capacidade de mobilidade e de conhecimento, também faz com que a nossa interpretação da vida se dilua na aldeia global. Arrisco-me até a afirmar que, no futuro, os ingleses serão menos cinzentos, os alemães menos frios, os americanos menos entusiásticos… ou que todos seremos mais do mesmo!” O prognóstico é lançado após intensos períodos de observação realizados nas viagens diárias de metro, nas visitas à Comissão Europeia ou nas conversas nos cafés da cidade. Diariamente, passa por vários portugueses que se confundem no meio de uma multidão uniforme. Em tom poético, afirma: “Genuinamente, somos todos feitos da mesma matéria – todos temos os mesmos objectivos, as mesmas ilusões, os mesmos amores, a mesma dor.”

 Por motivos pessoais e/ou profissionais, Daniela Santos vai conhecendo alguns destes emigrantes lusos com que diariamente se cruza. Depois de uma grande vaga de emigração que marcou os anos 60 e 70, a gestora de projectos considera que a tendência volta a acentuar-se: “Há agora uma nova geração com a qual tenho contacto e que, tal como eu, saiu de Portugal para estudar ou viver uma experiência de trabalho ambiciosa. Mas uma coisa é certa, os portugueses são sempre muito bem recebidos e tidos em alta conta. Esse é também o maior ganho desta experiência - perceber que, como povo, erramos tanto como os demais e trabalhamos tanto ou melhor!”.

 Licenciada em Inglês/Alemão, e poliglota por natureza, Daniela Santos sempre sentiu necessidade de contactar com outras culturas, como forma de enriquecimento intelectual. Depois de alguns anos a leccionar, decidiu, em conjunto com o marido, ultrapassar as já extintas fronteiras em busca de novos desafios. Apesar de não considerar os seus compatriotas tacanhos, reconhece que o desânimo nacional constituiu um grande incentivo à sua partida: “A sociedade portuguesa vive estrangulada entre um sistema político no qual não confia e a vida real que cada vez exige mais de cada um. Vive-se um sentimento de desalento, sem grandes perspectivas. Não há carisma na liderança partidária, da esquerda à direita, e as pessoas têm dificuldade em acreditar que a Assembleia é verdadeiramente representativa dos interesses de todos e de cada um dos portugueses.”

 Actualmente, trabalha no Observatório Internacional de Justiça Juvenil, onde gere projectos desenvolvidos em conjunto com a Comissão Europeia. Perfeitamente integrada neste ambiente multicultural, afirma-se realizada em termos profissionais: “Sinto que esta experiência é única!” O regresso a Portugal faz parte dos planos, embora não a curto prazo. As saudades apertam e o projecto está bem definido: “Desde o primeiro dia em que saí que quero voltar. Sempre considerei que fazia sentido sair do país para depois voltar e pôr a minha experiência ao serviço das minhas raízes.”

 

Pedro Sanches, 27 anos

(Engenheiro Biomédico, na Holanda)

 Espírito empreendedor e alguns rasgos de hiperactividade. Assim se poderia definir Pedro Sanches, 27 anos, a trabalhar e a estudar em Eindhoven. Como surgiu a oportunidade de rumar à Holanda? Pela resposta, parece ter sido muito simples: “Fiz um estágio profissional no Instituto Gulbenkian de Ciência, em 2007. Em Novembro desse ano preparava-me para me candidatar a doutoramentos na Austrália quando um cientista da Philips Research Eindhoven veio dar uma palestra ao Instituto Superior Técnico. Fui assistir, fiz perguntas e, no final, pedi trabalho na Philips!” E não é que conseguiu? Em Janeiro de 2008 Pedro Sanches fez as malas e partiu para a Holanda, iniciando um estágio de seis meses na empresa pretendida.

 Quatro meses depois de ter iniciado a experiência, o desempenho valeu-lhe uma nova oportunidade, desta vez a de realizar um doutoramento na sua área. As condições oferecidas revelaram-se irresistíveis: “Tenho contrato de trabalho a quatro anos, recebo bónus de final de ano, subsídio de férias, 43 dias de férias, aumento salarial anual e já desconto para a reforma, coisa impensável em Portugal como bolseiro.” Para além disso, Pedro Sanches sempre tinha desejado trabalhar fora de Portugal: “A nível profissional, há muito mais possibilidades de emprego!”

 Neste ponto da entrevista, atrevemo-nos a perguntar se considera que estas diferenças também estarão relacionadas com o afamado espírito tacanho dos portugueses. O engenheiro recusa esta ligação: “O problema é que há tantos obstáculos internos ao desenvolvimento que mesmo o português mais sonhador se sente um pouco impotente, o que cria uma espécie de passividade generalizada. Isto reflecte para o exterior um espírito tacanho.” O que, na sua opinião, não corresponde à realidade: “Os portugueses são um povo tipicamente tacanho (em altura!) mas não em espírito!” Como observador externo, Pedro Sanches acredita que a sociedade portuguesa tem um enorme potencial de desenvolvimento, eternamente bloqueado “por um sistema de justiça dolorosamente ineficiente, uma governação política fraca e com muito pouca visão a longo prazo, a adicionar a uma prevalência absurda do espírito de tentar sempre dar a volta ao sistema... aquele ‘jeitinho de quem conhece um tipo que conhece um tipo’.”

 

Cláudia Tomaz, 36 anos

(Realizadora de cinema, em Londres)

 Inquietude. Sentimento que, no caso de Cláudia Tomaz, adquire contornos positivos que a podem descrever. Aos 36 anos, é realizadora de cinema e, mais recentemente, de vídeos para Internet. Reside em Londres e não considera, de todo, a hipótese de voltar a Portugal. Terá sido o espírito tacanho de alguns portugueses o responsável pela sua saída do país? Vejamos o seu percurso…

 Há quinze anos atrás, quando terminou a licenciatura, teve oportunidade de começar a trabalhar com algumas das melhores referências cinematográficas em Portugal: Paulo Rocha, Pedro Costa e José Álvaro Morais. Realizou várias curtas, documentários e duas longas-metragens - Noites (premiada em Veneza) e Nós – iniciando um percurso que se configurava exemplar e auspicioso. Mas Cláudia Tomaz queria muito mais e, em 2005, resolveu atravessar o Atlântico. Com uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian, fez as malas e partiu para os Estados Unidos, onde trabalharia como argumentista. A enriquecedora experiência acabaria por marcar um ponto de viragem no seu percurso profissional: “Lá, as coisas aconteciam a grande velocidade e eu aprendi muito. Os americanos são muito práticos.”

 Terminado o período como bolseira, regressou a Portugal cheia de energia e projectos por concretizar, mas a desilusão foi inevitável: “Era como se tudo funcionasse em câmara lenta. Toda a gente estava deprimida e sempre a queixar-se... Eu precisava de coisas novas e de gente com iniciativa à minha volta.” Em pouco tempo, Cláudia Tomaz acabou por perceber que Portugal deixara de ser a sua casa. Cosmopolita por natureza, sempre teve amigos em várias partes do globo, pelo que decidiu aceitar o convite de um deles e rumar a Londres para tentar a sua sorte.

 Pouco tempo depois já tinha fundado a Holon Film Lab, uma plataforma que pretende desenvolver uma arte sem fronteiras. Actualmente, a Internet é a sua grande aposta, tendo criado o projecto Micro Films Web Tv, um espaço para mostrar os seus filmes em formato micro, actualizado semanalmente, e onde se prepara para lançar uma série – London Ground – sobre arte e música underground em Londres. Face à hipótese de ter permanecido no país de origem, Cláudia Tomaz responde: “Acho que fiz bastante em Portugal, mas há sempre muitos obstáculos, paga-se mal e não há trabalho. As pessoas não se entusiasmam com facilidade; há uma grande dificuldade em passar à acção e demasiadas esperas.” Compassos que, definitivamente, não combinam com a sua personalidade: “Num certo sentido, sou impaciente. A vida é curta e gosto de ter a liberdade de fazer as coisas quando têm que ser feitas. Tenho um sentido de urgência que não é muito compatível com o estado geral de Portugal.”

Para elaborar uma descrição da sociedade portuguesa, Cláudia Tomaz usa imagens contundentes: “A última vez que estive em Lisboa, muito de passagem e em trabalho, senti que as diferenças sociais estão maiores e mais visíveis. Há muita gente a viver na rua, ao lado de lojas de designers e hotéis de luxo...” Terão sido estas imagens que a impulsionaram a deixar Portugal? De que forma descreveria os portugueses? “É verdade que os portugueses (no geral) pensam pequeno, andam mal dispostos, são um pouco mesquinhos e pouco abertas ao novo. Será isto ser tacanho?” A pergunta é deixada no ar, em jeito de reflexão filosófica.

 

Tiago Fleming Outeiro, 33 anos

(Investigador regressado)

 Iniciar uma carreira científica no estrangeiro, por muito aliciante que possa parecer, nem sempre é sinónimo de um compromisso eterno. Por vezes, regressa-se a casa. Foi o caso de Tiago Outeiro, professor na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa e investigador principal no Instituto de Medicina Molecular.

 Depois de vários anos em Inglaterra e nos Estados Unidos, o regresso é sempre envolvido de alguma surpresa. Ao espanto, Tiago Outeiro responde com pragmatismo: “É típico da nossa ‘tacanhez’ pensar que só se faz ciência de qualidade lá fora. Isto não é, de todo, verdade. Fui para o estrangeiro porque tinha vontade de explorar mundos diferentes, de conhecer novas formas de pensar, de viver e de fazer ciência. Depois de regressar posso dizer que, na minha área profissional, as diferenças não são assim tão grandes.” A respeito da característica nacional que define esta edição da Nós, Tiago Outeiro tem uma visão particular: “Considero que temos tacanhez a mais, sem dúvida. Isso nota-se de uma forma transversal na sociedade portuguesa, sem olhar ao estrato social ou à educação.” Apesar de tudo, o professor adopta uma posição optimista relativamente a este aspecto, sublinhando que a tendência não é irreversível: “É algo que pode ser alterado com o tempo, com a globalização, o contacto e intercâmbio com outras culturas, e com a consciência de que temos mais a ganhar se conseguirmos deixar de ser tacanhos.” Para tal, Tiago Outeiro defende uma solução simplista: “Basta querer!”.

 Licenciado e doutorado em Bioquímica, assume um percurso que passou, em várias fases, pelo estrangeiro: “No final da minha licenciatura, decidi ir fazer o estágio para Inglaterra, como estudante de Erasmus. Fui para a Universidade de Leeds, onde estive durante sete meses. Depois, fui para os EUA, para a Universidade de Chicago, para fazer o doutoramento. Quanto estava a meio, o laboratório onde investigava mudou-se para Boston, para o MIT, e por isso mudei-me para lá.” Terminado o doutoramento, prossegui a investigação, concluindo um pós-doutoramento na Universidade de Harvard.  Fazendo jus ao bom nome dos cientistas portugueses, Tiago Outeiro distinguiu-se nos vários centros onde trabalhou, o que gerou algumas aliciantes oportunidades de emprego. Apesar disso, como já referimos, optou por contrariar as expectativas e regressar a Portugal.

Maria João Caetano, 28 anos

(Jornalista em Macau)

 E se qualquer país europeu, ou mesmo os EUA, parecem já ali ao lado ou a apenas um oceano de distância, o mesmo não pode dizer-se de uma das ex-colónias portuguesas no Oriente. Apesar da passagem à jurisdição chinesa, em 1999, a proximidade linguística e cultural que une Portugal e Macau continua a fazer com que muitos portugueses aceitem propostas de trabalho com duas características irresistíveis: estabilidade e boa remuneração.

 Cansada de somar estágios curriculares, Maria João Caetano trabalhava num jornal diário de Lisboa que se encontrava prestes a encerrar quando recebeu uma proposta tentadora: um contrato de um ano numa rádio macaense. A possibilidade de conhecer novas culturas, bem como o irresistível binómio acima mencionado, fizeram com que se despedisse da família e amigos e partisse à aventura. Quatro anos passados, é já tempo de efectuar um balanço e Maria João Caetano afirma-se bem integrada, tanto pessoal como profissionalmente. No dia-a-dia, esforça-se por pronunciar algumas palavras de mandarim que a vão libertando de possíveis embaraços, mas o seu convívio é essencialmente realizado com membros da comunidade de língua portuguesa. A hipótese de voltar a Portugal existe, embora tenha deixado de constituir uma pressão diária.

 “A minha área profissional não me reservava grandes ofertas no país. A oportunidade veio de fora e seria tolice não a agarrar”, afirma. Na opinião da jornalista, a sociedade portuguesa vive um profundo impasse, aliado a uma grave crise económica. Apesar disso, está longe de considerar que o adjectivo que melhor descreve os seus compatriotas seja o que orienta esta edição: “Não conheço muitos portugueses que considere tacanhos, no sentido de serem acanhados ou indiferentes aos grandes movimentos do mundo. Se tivesse de escolher características comuns à maioria, escolheria, pelo contrário, a curiosidade e a disponibilidade para quase tudo.” Maria João Caetano e os quatro entrevistados desta reportagem são disso exemplo. Em comum têm ainda o facto de lamentarem que a sua progressão profissional não pudesse ter sido mais fácil em Portugal. Por sua vez, também a forma de contornar as eternas saudades parece ser a mesma, baseada nas novas tecnologias: “Não sei se a saudade é exclusivo dos portugueses, embora reconheça que há povos mais pragmáticos. Quando sinto falta de família e amigos que tenho em Portugal, escrevo-lhes ou falo com eles. Quando posso, visito-os.”

Ana Catarina Pereira

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