Ruínas

Cuidar do Património? Para quê?

 Os locais em ruínas não são absolutamente tristes, pelo contrário: visitá-los pode constituir uma imensa fonte de inspiração. Para além disso, fazem parte do imaginário dos melhores filmes de terror, das aventuras dos adolescentes mais destemidos e dos passeios turísticos por terras com nomes que não figuram no mapa. Triste é perceber que não fomos capazes de os preservar. Costuma dizer-se que quem se esquece da História acaba sempre por repeti-la…

 Esquecer o património cultural e arquitectónico de um país é sinónimo de desrespeito pela sua memória. Assim sendo, coloquemos de lado a nostalgia: os portugueses vivem intensamente o presente e estão-se nas tintas para o passado e respectivas glórias alcançadas. O raciocínio até poderia fazer sentido, mas não condiz com a descrição dos que habitualmente nos rodeiam. Ora então vejamos: se o fado é a nossa música, a saudade teima em invadir cada espírito lusitano e a História faz parte do orgulho em ser português, por que não fazer um pequeno esforço para preservar o legado cultural das gerações que nos antecederam?

 Os portugueses sempre foram assim. Atravessamos a antiga fronteira e os espanhóis parecem ter facilidade em transformar um conjunto de pedras num verdadeiro castelo medieval. É fácil comprovar que os castros antigos das cidades de nuestros hermanos estão bem conservados, enquanto igrejas e catedrais são fielmente restauradas com a frequência necessária. Do lado de cá, a História realiza o percurso inverso: muitos antigos castelos encontram-se hoje reduzidos a um mero conjunto de pedras. Para o comprovar, fizemos mais de 200 quilómetros pela zona centro do país, por terras das Beiras Baixa e Alta.

 Os cenários encontrados devolveram-nos sentimentos contraditórios. Ninguém se lembra que eles existem. Ninguém fez um esforço de recuperação. Mas neles reencontramos alguma paz de espírito. Aqui, o stress do dia-a-dia não passa de um nome em inglês, uma doença das grandes cidades, onde todos correm de um lado para o outro, sem saber o que é viver.

 A primeira paragem foi o antigo Sanatório da Serra da Estrela. Um verdadeiro miradouro com vista privilegiada sobre a Cova da Beira, situado a escassos quilómetros da Covilhã. O projecto original do edifício, da autoria do arquitecto Cottinelli Telmo, remonta a 1927. Depois de ter servido como sanatório para ferroviários, foi ocupado, na década de 70, por famílias de retornados do Ultramar. Nos anos 80 foi votado ao abandono, encontrando-se hoje em avançado estado de degradação. Uma monumental obra que poderia ser reaproveitada como unidade hospitalar, hotel de luxo ou edifício público. Votada ao abandono, constitui apenas um cenário triste, que acabará por ruir numa das muitas noites de tempestade que por aqui se fazem sentir.

 Da história mais recente do Santório fazem parte alguns factos curiosos. Depois de ter sido propriedade da Turistrela, empresa concessionária do turismo na Serra da Estrela, foi vendido, em 1998, à Enatur - Grupo Pousadas de Portugal, pelo simbólico valor de um escudo, em cerimónia apadrinhada pelo então Primeiro-Ministro António Guterres. Como condição, a Enatur comprometeu-se a transformar o espaço numa das pousadas de referência da sua rede nacional, sob pena de, caso não o fizesse, ser obrigada a devolver o imóvel. O convite para desenhar o projecto seria aceite pelo arquitecto Souto Moura, prevendo-se a construção de uma unidade hoteleira com 56 quartos, orçada em 10 milhões de euros. No entanto, pouco tempo depois, o Grupo Pestana passou a explorar as Pousadas de Portugal e afirmou não ter qualquer interesse no projecto.

 Em Fevereiro de 2003 foi aberto novo concurso público, desta vez internacional, para a obra, mas também não obteve resultados. Desta forma, o contrato estabelecido em 1998 nunca avançou, pelo que o imóvel regressou à posse da Turistrela em 2004. Ao longo dos anos, a Região de Turismo da Serra da Estrela tem reclamado a realização da obra e chegou a ameaçar processar o Grupo Pestana pela não concretização do investimento previsto. Avanços e recuos que, até hoje, não surtiram qualquer efeito, nem travaram o degradar das paredes deste edifício.
 Em seguida, dirigimo-nos a Belmonte. Sem entrarmos na terra onde nasceu Pedro Álvares Cabral, conhecida pela sua forte comunidade judaica, dirigimo-nos à freguesia de Colmeal da Torre. Aí encontramos a famosa Torre de Centum Cellas, ou o que resta de uma importante vila romana do século I.  Segundo alguns habitantes da região, esta terá sido a residência de um nobre romano com grande influência política e poder económico, que ali vivia com a família e criados.

Mas a origem histórica deste monumento não é, de forma alguma, consensual, sendo que Centum Cellas foi durante muitos anos um dos mais intrigantes enigmas arqueológicos de Portugal. As mais variadas hipóteses eram colocadas acerca da sua data e construtores, tendo algumas chegado a adquirir contornos de lendas. Dizia-se, por exemplo, que esta teria sido a prisão onde o Papa S. Cornélio viveu exilado - daí a torre ser igualmente conhecida como Torre de S. Cornélio. Em paralelo, adivinhava-se em voz alta que Centum Cellas era o que restava de um templo ou de um acampamento romano. Por sua vez, lendas de cariz mais popular dizem ainda que a torre teria sido construída por uma mulher com um filho às costas, ou que nela estaria enterrado um bezerro em ouro. Até hoje, as “investigações” realizadas por caçadores de tesouros apenas serviram para ajudar à degradação do monumento.

 Na realidade, a expressão Centum Cellas significa “cem divisões”, o que atesta a grandiosidade que a obra terá tido noutros tempos. De acordo com um artigo do jornal Terras da Beira, publicado a 20 de Abril de 2000, a torre foi classificada Monumento Nacional em 1977. Tendo sido alvo de escavações no final da década de 50, só com as pesquisas levadas a cabo entre 1993 e 1998 se terá revelado a sua verdadeira história. Descobriu-se que o monumento era apenas a parte urbana da vila, onde habitava uma família com grande poder económico. Nas imediações, terão existido outras zonas: uma parte rústica para os escravos e trabalhadores, e uma outra parte onde se situavam os armazéns, adegas e celeiros. A actividade principal era a exploração mineira, nomeadamente a de estanho, conforme indicam alguns dos artefactos apresentados.

 Nestas escavações, sob a direcção da arqueóloga Helena Frade, encontraram-se restos de uma igreja e de um larário com seis aras decoradas e os restos de uma sétima. As aras eram usadas para a adoração das divindades romanas, sendo que uma delas, datada do século I, contém epígrafes referentes às deusas Vénus e Minerva. Todas as peças encontradas encontram-se actualmente na posse do IPPAR, em Coimbra.

 Depois de visitarmos este pedaço de terra onde a lenda e a História se cruzam, pegamos no mapa e conduzimos para Norte. Dirigimo-nos a Pinhel ou, mais propriamente, à aldeia de Santa Maria de Porto de Vide. Este foi o primeiro nome da povoação medieval, embora o que hoje em dia reste seja mais conhecido por Bogalhal Velho.

 À chegada, não podemos evitar uma certa desilusão. Vários quilómetros percorridos por uma estrada em mau estado conduzem a uma povoação com poucos vestígios ainda reconhecíveis. Ainda assim, o cenário natural minimiza (e muito) os estragos. Situando-se numa colina com vista para a Serra da Marofa e para a Ribeira das Cabras (que aqui perto se junta com o Rio Côa), este é um território alheado da habitual azáfama dos circuitos turísticos. O verde e as montanhas são a perder de vista, e a solidão é um dos traços do local: a toda a volta não avistamos uma única pessoa. Mas à nossa frente estão as terras que inspiraram Aquilino Ribeiro e Vergílio Ferreira (demoramos pouco tempo a perceber porquê).

 De aldeia de Santa Maria de Porto de Vide restam hoje o esqueleto gótico da igreja, vestígios de habitações e muros. A localidade poderá ter sido um ponto estratégico na defesa do Reino e deverá ter sido abandonada no final da Idade Média, à semelhança do que sucedeu com a povoação vizinha de Castelo de Monforte, em Figueira de Castelo Rodrigo. De aqui se avistam diversas espécies de aves, que rasgam os céus cinzentos. Um cenário protegido de qualquer intervenção humana, uma vez que nos encontramos em plena área da Rede Natura 2000. Existem locais assim, perdidos na bruma dos tempos ou no esquecimento dos que já não passam por aqui.

 Ao fim da tarde, sedentos de mais paisagens infinitas, continuamos a subir para Norte. Desta vez, para outro Colmeal, o de Figueira de Castelo Rodrigo. Aqui, para além da natureza, é a própria densidade populacional da freguesia que nos espanta: a única em Portugal com zero habitantes!

Corria o ano de 1956 quando a proprietária destas terras decidiu despejar todos os habitantes da aldeia - uma decisão inédita no país, aprovada pelo tribunal. Na época, o feitor subarrendatário tinha deixado de pagar a renda àquela que era, de acordo com uma escritura de 1912, a nova e legítima proprietária dos terrenos, herdados dos condes de Belmonte. Numa manhã de Julho do ano seguinte, a GNR teve de intervir para expulsar os habitantes, obrigados a deslocarem-se para outras localidades do concelho de Figueira de Castelo Rodrigo. Segundo os populares das freguesias em volta, houve casas queimadas e registaram-se mesmo alguns mortos.

 Historicamente, o nome de Colmeal provém da riqueza em cera e mel que as suas inúmeras colmeias proporcionam. Embora o nome se mantenha, a população vive nos lugares de Bizarril, Luzelos e Milheiro. Da localidade restam apenas as ruínas das casas que foram abandonadas, desde a igreja que já perdeu o telhado àquele que terá sido um imponente solar, no extremo oposto. Recentemente, a Assembleia Municipal de Figueira de Castelo Rodrigo decidiu criar um grupo de trabalho para averiguar do potencial turístico do Colmeal, traduzível na sua história, meio ambiente e ainda no facto de por aqui ter morado a mãe de Pedro Álvares Cabral. Parece-nos justo, e esperamos que as averiguações não demorem, pois mais gente merece conhecer este local, antes que a degradação seja completa.

 E porque as Beiras não se encontram apenas em ruínas, na viagem de regresso passamos por Guarda, Belmonte e Idanha-à-Nova, exemplos de que o respeito pelo património e a reconstrução de monumentos históricos podem tornar as localidades mais apelativas em termos turísticos (tal não é apenas sinónimo de chineses com máquinas fotográficas penduradas ao pescoço, mas também de uma maior riqueza e criação de postos de trabalho). Em tempos de crise económica, uma zona que tanto sofreu com a falência das indústrias têxteis, poderia encarar o turismo como a solução para a superação da crise.

Ana Catarina Pereira

This site was designed with the
.com
website builder. Create your website today.
Start Now