O mundo enquanto criança

 A mente de uma criança é um mistério para muitos adultos. A idade dos porquês, as cenas embaraçosas em locais públicos ou a observação perscrutante de alguns fenómenos são, por vezes, difíceis de interpretar. Na tentativa de resolução de alguns destes mistérios, visitámos duas escolas primárias de contextos sociais e geográficos distintos. Aos alunos, pedimos que nos ajudassem a definir conceitos ambíguos e subjectivos do ponto de vista de um adulto, como o amor, a arte e a liberdade. Conhecerão eles os seus direitos? Saberão apresentar alternativas aos actuais sistemas político e económico nacionais? Algumas respostas foram surpreendentemente maduras.

 Na Escola Primário de Peso, aldeia com cerca de 1200 habitantes, situada a 15 quilómetros da Covilhã, visitámos a sala comum ao primeiro e quarto anos. Num edifício antigo, que mantém a arquitectura do período do Estado Novo, a mesma professora dá aulas a 15 alunos dos dois anos em simultâneo.

Em Lisboa, visitámos a Cooperativa A Torre, uma escola privada que ocupa uma vivenda antiga do bairro do Restelo, zona nobre da capital. Reconhecidos pela inovação dos métodos ministrados, que passam pelo ensino da Filosofia para Crianças, os professores têm cerca de 20 alunos por turma, separados pelos respectivos anos.

 

Escola inserida num meio rural

 

 Numa intensa manhã de chuva, uma jornalista que se propõe entrevistar crianças de uma aldeia pouco mediática, pode ser alvo de desconfiança (ou simples curiosidade) por parte dos mais novos. Mas, à medida que os olhares de espanto vão diminuindo, peço-lhes que invertam os papéis e tentem colocar-se, eles próprios, na posição de observadores dos “mais crescidos”.

 As ideias começam a surgir. Para as crianças desta escola beirã, os principais motivos de preocupação dos adultos prendem-se com a instabilidade profissional. Numa zona de mono-indústria que acaba por sofrer os efeitos de uma crise económica global, alguns dos pais destes alunos são actuais desempregados do sector têxtil. Uma das crianças conta precisamente que a mãe se encontra a concluir o nono ano num curso de formação subsidiado pelo centro de emprego. Aos olhos do filho, esta é uma alternativa com grandes vantagens: “Assim ela vai aprender mais coisas e ter mais possibilidades de arranjar trabalho”, afirma.

Pergunto-lhes se é também por essa razão que vêem à escola. Respondem em coro: “Sim! É para, um dia, termos um bom emprego.” E porque de sonhos é sempre feita a mente de uma criança, tento conhecer as desejadas e futuras profissões. As respostas revelam uma grande consensualidade: as meninas querem ser médicas ou cabeleireiras (em ambos os casos por pretenderem “ajudar as pessoas”) e os meninos querem ser jogadores de futebol (na sua imensa maioria), polícias ou bombeiros.

 Vencida a resistência inicial, e visivelmente mais descontraídas, estas crianças sentem-se perfeitamente confortáveis perante a palavra “amor”. “Para mim, é gostar muito de uma pessoa, tratá-la com carinho, fazer tudo o que ela quer, levar boas notas”, afirma Nuno, nove anos. Para a generalidade dos colegas, a família é a principal fonte de um afecto que fazem questão de demonstrar com “beijinhos, abraços e desenhos”. Contudo, nem mesmo nestas idades o amor é separável de outro sentimento que já sabem identificar: o ciúme. Genericamente, relacionam o conceito com a inveja de colegas que vistam roupa ou ténis novos, enquanto Nuno arrisca uma definição mais sentimental: “O ciúme é quando eu tenho inveja pela minha professora gostar mais do meu colega do lado”.

 Mudando de tema, pergunto-lhes se consideram que todas as crianças do mundo têm a possibilidade de ir diariamente à escola. Os alunos do quarto ano respondem que não: “Existem países muito pobres, em que os pais dos meninos também são muito pobres. Alguns não têm sequer pais.” Consideram que estes países se situam sobretudo em África, enquanto Luís, nove anos, cita os casos da Índia, Paquistão e Moçambique. Como este parece ser o início de uma reflexão sobre injustiças sociais, pergunto-lhes se têm noção dos seus direitos enquanto crianças, ou se já alguma vez se depararam com o conceito. “Claro que sim”, afirma Jessica, nove anos. “Essas crianças (as de África) não podem fazer as mesmas coisas que nós. Eu posso vir à escola, brincar, aprender coisas, ter uma família, jogar jogos”. Tendo eles próprios efectuado uma comparação com países em vias de desenvolvimento, pergunto-lhes se consideram Portugal como um país livre e democrático. “Sim, mas não foi sempre”, volta a responder Luís. “Só depois do 25 de Abril, que foi uma revolução das pessoas. Antigamente elas não podiam estudar, dizer o que pensavam, fazer o que queriam… E também não tinham computadores.”

 Mudando novamente de assunto, ficamos a conhecer o significado da arte para estas crianças. Luís considera que “um artista é um homem que pinta quadros”. Perante a aceitação do grupo, questiono-os sobre a possibilidade de existência de outras formas de expressão artística e salpico o silêncio que se segue com algumas possibilidades de resposta: “A literatura e o cinema serão arte?” Motivada, Jessica afirma que a arte pode ser tudo: “A arte é fazer coisas bonitas. A própria natureza também é arte.” Aproveitando a deixa, alguns alunos sublinham a importância de cuidarem do ambiente, ao contrário do que se faz nas grandes cidades. Caso lhes fosse dada a opção entre a vida urbana e a rural, afirmam que não trocariam a aldeia beirã onde residem, “perto das árvores e longe da poluição”.

 

Ensino privado em Lisboa

 

 Na Cooperativa A Torre, começo por conversar com alguns alunos do primeiro ano, com idades compreendidas entre os seis e os sete. A pergunta mais romântica da entrevista acaba por se impor e dá o mote a um diálogo animado em que quase todos os alunos participam activamente. Para a maioria destas crianças, o amor também está relacionado com a família, embora Diogo consiga recordar-se de outras pessoas pelas quais sente afecto: “Gostar de uma pessoa é ficar corado. Eu quando gosto muito de uma actriz da televisão, às vezes, até sou capaz de fazer pausa no filme, ficar a olhar e mandar-lhe beijinhos.” Os colegas garantem que é verdade: “Ele faz isso com uma menina do ‘High School Musical’.”  Relativamente aos ciúmes, também nesta matéria Diogo se revela um verdadeiro “expert”, contando a história de um casal amigo dos seus pais: “Eles já tinham uma filha adolescente, depois tiveram outra e passaram a ligar só à bebé. Agora, a mais velha anda pela casa a pôr fotografias dela em todas as paredes.”

  Mudando de tema, entre a animada plateia destaca-se uma futura artista: “Eu quero ser pintora. Quando acabo de pintar um desenho acho que fica bonito! A arte é fazer coisas bonitas e coloridas”, afirma Luísa. Inspirada pela colega, Teresa avança um pouco mais na definição: “Às vezes, nos museus há uns quadros um bocadinho estranhos para as pessoas poderem imaginar o que é que aquilo quer dizer.” Por outro lado, Joana parece intuir um certo carácter de homenagem tardia aos artistas, quando afirma: “às vezes a arte é um senhor que era muito importante, só que já morreu e fizeram uma arte com ele”.

 Como na Escola Primária do Peso, os alunos do primeiro ano sabem que nem todas as crianças vivem a mesma realidade socioeconómica: “Há muitos meninos no mundo inteiro que não têm pais, nem dinheiro, vivem na rua e nem sequer vão à escola”, afirmam Samuel e Manuel em simultâneo. Quando lhes pergunto se, enquanto crianças, conhecem os seus direitos, hesitam, mas acabam por elaborar uma listagem semelhante à da primeira escola: direito a brincar, aprender, comer, ir a festas de anos e ser respeitado. Politicamente, revelam já alguns conhecimentos sobre a história de Portugal e Teresa recorda inclusive que a avó já esteve presa: “Foi antes do 25 de Abril, e só por dizer o que pensava”, sublinha. O seu colega André parece interessar-se em particular sobre o tema e disserta: “Isso foi quando o Salazar era presidente. Ele não deixava as pessoas falar, nem darem os seus conselhos. Depois deixou de ser presidente, porque as pessoas não quiseram mais e fizeram uma revolução - puseram cravos nas espingardas, em vez de balas.”

 

Filósofos em ponto pequeno

 Já na sala do quarto ano, António, nove anos, futuro escritor e realizador de cinema, afirma que os adultos têm dificuldade em definir o amor simplesmente porque o sentem: “Há dois sentidos para o amor, o da minha mãe que gosta de mim e que me defende, e o outro amor, que é quando gostamos e estamos apaixonados por outra pessoa. É um amor mais sentimental”. Por seu lado, João considera que estes não são dois tipos de amor distintos: “Eu acho que só existe um amor – fazem-se é coisas diferentes por amor.” Quando questionado sobre o ciúme, um dos alunos estabelece uma relação com o conceito anterior: “Os ciúmes acontecem quando duas pessoas amam a mesma pessoa. Uma dessas pessoas namora com a pessoa de quem gosta e o outro (o que não namora) tem ciúmes. Quer dizer, ele também gostava de namorar.” A teoria inspira Guilherme que, munido de evidentes dotes teatrais, afirma: “Quando uma namorada é muito ciumenta e vê uma rapariga ao pé do rapaz vai logo dizer ‘Afasta-te! Ele já tem namorada!’.” Para Marta, por sua vez, os ciúmes também podem estar relacionados com a ambição: “Imaginemos uma pessoa que já tem o que quer. De repente, começa a querer cada vez mais coisas e depois perde tudo. Nessa altura, começa a ficar com ciúmes.”

Quando lhes pergunto se gostariam de passar alguma mensagem aos adultos em geral, Marta formula uma ideia interessante, reflexo dos dias que correm: “Há coisas que eu percebo muito bem, como os contos de fadas, por exemplo. Mas, se a minha mãe for ler, ela já não percebe da mesma maneira que eu. Eu gostava de lhe explicar, mas ela tem mais que fazer. Os adultos não ligam às crianças, só se preocupam com o trabalho e com coisas como ‘alguém levou uma multa’ ou ‘alguém partiu uma perna’, e esquecem-se de brincar.” Teresa concorda inteiramente com a amiga: “Muitas vezes, quando eu quero dizer alguma coisa aos meus pais, eles já sabem que aquilo vai acabar numa conversa um pouco esquisita e perguntam logo ‘o que é que aconteceu?’.”

 Para estas crianças, o conceito de liberdade é também uma característica dos adultos, que “podem fazer o que querem”, em oposição às crianças que se encontram condicionadas pela vontade dos primeiros. “Mas será que todos os adultos que vocês conhecem podem realmente fazer o que querem?”, pergunto-lhes. João Pedro responde que não: “A minha empregada não tem tanta liberdade como o meu pai, ele é que a manda limpar a casa e o escritório”. Sobre este tema, António - o futuro escritor/realizador - formula uma teoria invulgar para um rapaz de nove anos. Na sua opinião, o sistema político em que vivemos é injusto, sugerindo várias alternativas que considera mais eficazes: “Nós, as crianças, não temos que trabalhar para viver. Por outro lado, porque é que existe o trabalho? Cada um devia poder sustentar-se a si próprio, não devia existir dinheiro. Devia existir um único poder que tratasse do país, construísse as coisas e fizesse apenas uma ou duas leis (mas não muitas). Esse poder construía, por exemplo, uma fábrica de papel higiénico. Quem queria o seu papel higiénico, entrava e fabricava. Só a escola é que era estritamente necessária.”

 No mundo de António, os adultos teriam uma única obrigatoriedade: a de estudarem e se manterem informados. Mas João Pedro contesta: “Se não houvesse dinheiro e o homem não fosse obrigado a trabalhar, caçar ou cultivar, vivíamos todos na miséria. Há frutos que estão no outro lado do mundo e, se não houver dinheiro para os transportar, nunca os vamos poder provar.” Francisco, por seu lado, consegue descortinar a grande vantagem da hipótese formulada por António: “era bem melhor que não houvesse dinheiro. Não existiam ricos ou pobres, passávamos a ser todos iguais.” Pensamentos naif ou a verdadeira essência do ser humano? Deixamos-lhes as questões em aberto, sem formular teorias ou procurar explicações científicas.

 

Ana Catarina Pereira

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